Foi a primeira vez que olhei, do centro da cidade, para o alto da montanha e vi labaredas a avançarem, noite dentro, proporcionando um espetáculo belo e perigoso. Estava há poucos dias na ilha, quando alastraram os incêndios que fizeram estragos de monta nos bens de um povo já tão castigado. Quase tudo se deteriora na minha Madeira. A saúde de familiares, a qualidade de muitos restaurantes e cafés onde me sentei, a simpatia das pessoas e os serviços públicos. O Lido que não reabre e o casal ao meu lado, na Ponta Gorda, a comer diretamente de uma lata de atum de uma conhecida marca branca e o desabafo: ou se paga a entrada no complexo balnear ou se gasta no café local, na maior parte do dia vazio ou a servir garotos "clarinhos" aos crescidos e gelados aos mais pequenos. Durante os meus incendiados dias na Madeira compensaram os serões do Funchal, a temperatura amena do ar, a música no jardim Municipal e na esplanada do Teatro e a magnífica companhia que me fez o favor de guiar por becos e ruas que não percorria com entusiasmo há muitos anos. Constatei a indiferença da sociedade e, pior, dos entes próximos, aos males da velhice e ao abandono dos idosos debilitados. A família, antes pilar insubstituível no amparo, esconde-se na esfarrapada desculpa de que "todos têm a sua vida", para lavar, como Pilatos, as mãos das dores dos seus. O egoísmo fala mais alto numa sociedade global cada vez mais indiferente aos valores da proximidade, do carinho e da compreensão. As instituições públicas de apoio vão alimentando a esperança de que tudo vai melhorar, sem apresentarem dados objetivos e soluções concretas para os que já contribuíram durante uma vida de trabalho. Nesses meus incendiados dias na Madeira fizeram ainda o favor de me recordar a forma (de sempre) de como se ultrapassam os problemas com que nos deparamos: com "uma palavrinha superior" e o caso resolve-se "rapidamente". O culto e o peso da cunha tão e sempre presente. Em cada esquina. Perante a minha estupefação e rejeição de folhear os contactos a ver se alguém "me deita a mão" e resolve o meu problema "com uma palavrinha", desarmam-me: "se não for por essa via, não se consegue nada". Entendido. Realmente tudo depende da "perspetiva" com que se olha para a vantagem de uma (boa) cunha, como o meu interlocutor me lembrou por diversas vezes. E a cada esquina desses afogueados dias uma placa a lembrar-me os nomes dos paladinos do regime. No hospital "Dr. Nélio Mendonça", no centro de qualquer patologia "Dr. Miguel Mendonça", no centro de saúde "Dr. Rui Adriano"... e por aqui me fico que a listagem é infindável. Claro está, tudo inaugurado por sua excelência o presidente de todos eles. E repete-se o nome (completo) do homem a cada cinco metros de distância. Que cheiro a queimado no Funchal. Tantas lojas a fecharem portas. Tantas boas e gratas memórias que também se evaporam. E, para cúmulo, não é que me servem o pior filete de espada com banana no mais conhecido restaurante da montanha madeirense? A correr, com pouca simpatia e com preços injustificadamente altos. (Senhor empresário: será que se combate a "crise" flagelando o cliente com qualidade medíocre e preços proibitivos?) Espero regressar ao tema noutros termos, sem incêndios, sem mágoas, sem recurso a cunhas e encontrando a minha Madeira como sempre foi: fraterna e hospitaleira. * Artigo escrito segundo a nova grafia
Roberto Ferreira