Já o disse várias vezes e assumo-o agora publicamente: tenho saudades do bispo Teodoro de Faria. Eu, que escrevi dois ou três apontamentos claramente contra as suas decisões, atitudes e silêncios, vejo agora que, nessa como em muitas outras circunstâncias da vida, “éramos felizes e não sabíamos”, como dizia Fernando Pessoa. Apesar de tudo em que cedia, de tudo o que pedia – e tinha, do Governo – a verdade é que Teodoro não se furtava a um ou outro comentário mais crítico e menos bem aceite pelo poder instalado. E com isso ganhava a verdade, a Igreja e a sociedade. Já António Cavaco Carrilho é diferente. Muito diferente. E para pior. Chegou, distribuiu sorrisos, hóstias e bênçãos e acenos de mão a todos e a rodos. Mas esquivou-se sempre, ou quase sempre, aos temas quentes. Prega o amor, exorta os valores da Religião, elogia os jovens e apela à solidariedade. Mas foge dos mais de 20 mil desempregados, dos milhares que começam a entrar em desespero, das centenas que começam a devolver casas e carros aos bancos. A esses, não se vislumbram palavras concretas que sirvam de consolo, de luz, de esperança de que tanto fala o bispo. Em vez de assumir uma posição própria, um espaço que é seu por natureza, uma intervenção que, em alguns casos, até é de valor, a Diocese do Funchal segue um caminho tão simples quanto inglório que é o da submissão. Fala baixinho, olha para o lado, esquece os pobres, pulula ao lado dos poderosos numa ligação que se confunde entre uma falsa ingenuidade e a semelhança a um acordo tácito, mesmo que implícito do género: “amigo não empata amigo”. Acontece que este aparente trato de cavalheiros de poder apenas serve aos amigos. De resto, empata uma sã vivência de uma sociedade que se quer moderna, equilibrada e justa. Que jeito tem esta distinção primária entre governantes, autoridades e “patas rapadas” junto ao altar? Por que razão os fiéis, os que vão sempre à missa ouvir o senhor padre lá da aldeia, têm de ir para o fundo da igreja quando chega a comitiva do senhor Governo que faz o frete de ir à missa para arrotar perante a gentalha que foi à missa? Isso é uma forma de enganar tolos e o bispo e os padres deveriam saber disso. Sabem disso. Não se trata aqui da decisão, legítima, embora estranha, de fechar a sacristia. Legítima porque se trata de um espaço que deve servir de ajuda ao pároco e seus acólitos; estranha por não se perceber que ajuda vão dar à sacristia o presidente do Governo e seus secretários, os vereadores, os polícias e os militares. Mas isso, da sacristia para dentro, é lá com eles, está fechado, está fechado nem se fala mais nisso, apesar de mais uma vez se estranhar a coincidência: depois da vergonhosa e inaceitável intervenção de Jardim na cerimónia do ano passado, é que a igreja, docilmente, muito docilmente, compreendeu este ano que, afinal, é melhor fechar a sacristia. E, no seu direito, fechou sem mais esta nem aquela. Jornalistas na rua, políticos e padres lá dentro. Estamos entendidos. Mas mais do que este episódio, em que um padre nega o que disse um membro da confraria alegando ordens do mesmo padre, é a promiscuidade e o sinal de vingança. O DIÁRIO não entra para junto do altar porque não. A RTP não filma porque não transmite em directo. E o repórter de imagem do Jornal da Madeira, aquele que é pago, e bem pago pelo Governo, através dos nossos impostos, esse sim, é dos bons, pode entrar e fotografar. Como se a igreja fosse deles, como se a casa de Deus fosse apenas dos homens de branco ou dos mais jovens, que usam fato negro e colarinho branco ao pescoço. Mais uma vez, perante este quadro, estamos entendidos. O que não se entende é que quase toda uma Diocese aceite vergar-se com mais ou menos costelas partidas a estes desvios que fazem ajoujar os mais fracos. E chegámos a um extremismo tal que aos sacerdotes que têm a coragem de evitar esta procissão, que nunca saiu do adro, são atribuídos os piores adjectivos: que são comunas, que são fascistas, que são políticos, que estão feitos com estes e aqueles. Não, tanto quanto percebo, estão comprometidos com os ensinamentos do seminário, com o que vem nas Escrituras, com o que está definido nos missais, com o que é dito nas práticas dominicais. O que não se entende é este comprometimento descarado de uma Diocese que todos os dias dá um passo atrás. E atenção: enquanto alguns adormecem no calor das sacristias, outros acordam almas fragilizadas com apelos que cheiram a trafulhice capaz de enganar os mais incautos, mas baseada em situações perigosamente concretas e verdadeiras. Não em filosofias de pacotilha, nem sermões sem chama nem alma. Não quero valorizar os que vendem religião, mas antes alertar os que assumiram o compromisso de zelar por ela quando juram que acreditam no que dizem à boca cheia e todos os dias essa teoria é rasgada numa qualquer boca pequena. Das vezes em que vou à missa e ouço aqueles rituais, há um que me causa sempre alguma confusão: é quando o padre, depois de certas passagens mais importantes, diz aos fiéis que podem sentar-se ou levantar-se. “Levantai-vos”, diz tantas vezes o sacerdote. E os católicos, por vezes de joelhos ou sentados, novos e velhos, levantam-se de forma mecânica. Acho que nunca entenderam que aquele “levantai-vos, irmãos” tem muito mais significado do que o simples acto de esticar as pernas. Mais do que isso, entendo a frase como um incentivo a que se estique o pensamento. Que se permitam os cristãos questionar, interrogar, observar e decidir e agir de acordo. Mas tendo sempre presente que esta Igreja não nos quer sempre sentados ou de joelhos. “Levantai-vos, irmãos”, diz o padre. Levantemo-nos, pois! Não apenas para conforto das pernas mas também, e sobretudo, para alimento do raciocínio e até mesmo da fé. “Levantai-vos”!