Atribui-se a denominação de "Silly Season" à época do ano, coincidente com o "pico" das férias de Verão, que é pobre em factos e eventos dignos de cobertura noticiosa. Esta escassez informativa, que usualmente se associa às férias dos parlamentos e governos nacionais, obriga os órgãos de comunicação social a noticiarem toda e qualquer "bagatela". Assim, nesta Silly Season tivemos o privilégio de ficar a saber que, no Texas, um americano de 56 anos decidiu reinventar o conceito de "fogo amigo", tendo sido baleado pela arma que transportava no bolso, a qual caiu ao chão e disparou acidentalmente quando o "cowboy" ocupava o seu lugar na plateia do cinema a que se deslocou. A bala atravessou a cadeira e perfurou as duas nádegas do atirador, o que, sem deixar de ser silly, sempre acaba por ser mais justo do que a eventual perfuração de uma qualquer parte do corpo de um terceiro alheio ao "fetiche" bélico-cinéfilo do primeiro. Antes de ser transportado para o hospital, o homem terá pedido desculpa por ter interrompido a sessão, tendo afirmado que não era sua intenção tornar-se numa atracção maior do que o filme. O argumento convenceu a plateia até porque, para obter tal efeito, bastava um disparo para o ar, opção que, não sendo tão espectacular - e sendo muito menos silly -, sempre permitiria ao "cowboy" trapalhão continuar a dormir de barriga para cima... Felizmente, segundo a "notícia" valeu ao atirador "ter todas as licenças de uso e posse de arma para que, além da ferida, não tivesse ainda problemas com a polícia", o que permite concluir que as forças policiais do Texas não se deixam comover por uma qualquer simples perfuração dupla das nádegas, informação que serve de aviso a todos aqueles que pretendam deslocar-se a este Estado com a intenção de cometer ilícitos. Por sua vez, nos arredores da - até então - pacata/silly aldeia Norueguesa de Hanestad, um condutor foi forçado a desviar-se de um alce, acabando por embater num urso que circulava na outra faixa de rodagem. Em resultado deste "animalesco" sinistro, o veículo ficou danificado e o alce escapou ileso. Face à presença de sangue no local, presume-se que o urso, que ainda se encontra "a monte", terá sofrido lesões internas. Apesar da notícia "informar" que "na Noruega há cem mil alces e 150 ursos castanhos" - agora, provavelmente, 149 -, a mesma nada esclarece relativamente ao estado do condutor, sendo, no entanto, de presumir que este ficou, no mínimo, embasbacado com o sucedido, bem como a lamentar o facto de, tendo tamanha pontaria, não ter apostado no sorteio do "jackpot" do euromilhões. Com efeito, assumindo que a seguradora do sinistrado terá dificuldade em acreditar que este se encontrava sóbrio, ou que o urso não circulava dentro da sua faixa de rodagem, o prémio sempre pagava o arranjo da viatura e o acompanhamento psicológico do alce... Num registo mais sério, mas igualmente silly, o caso Luisão demonstra que até os jogadores e os clubes de elite contribuem para o empolamento de factos aparentemente inócuos. Com efeito, na sequência de um episódio que, existindo, ou não, intenção de agredir, sempre seria lamentável, alguns jogadores e responsáveis do Benfica alegaram que, apesar dos efeitos de um choque frontal com um "matulão" da estatura e peso do Luisão, deslocando-se em corrida acelerada, serem óbvios, o juiz da partida "fez teatro". Muito embora tal não tenha sido alegado, presume-se que os clínicos que assistiram o árbitro na sequência do "KO técnico" imposto pelo capitão do Benfica, também simularam tal assistência. Assim, ao invés de lamentar o incidente, e de defender que o choque foi ocasional - o que as imagens televisivas até parecem sustentar, e permitiria preservar o bom nome do clube e do jogador -, o Benfica, para além de invocar que o árbitro tentou "sacar" um cartão a Luisão, vai alegar em defesa do jogador que, ao não exibir um cartão amarelo a si próprio antes de perder os sentidos e de interromper o jogo, o juiz cometeu um erro técnico e disciplinar. Não sendo uma estratégia de defesa brilhante - ou particularmente convincente -, confesso que já assisti à defesa de teorias jurídicas mais "sillies"...
Gonçalo Maia Camelo