O i é a mais insignificante das letras. Precisa, até, de dois elementos para estar completa - que o i é, afinal, um conjunto formado por um pequeno risco com um pontinho em cima. Um i sem o ponto não é i, é apenas um risco. O ponto completa o i, torna-o a nona letra do alfabeto, a vogal do meio. O ponto será um detalhe, dirão. Mas a verdade é que são os detalhes, as pequenas coisas aparentemente sem importância, que revelam a essência, os sentimentos e as razões mais profundas. Não é por acaso que quando é preciso esclarecer uma coisa dizemos Vamos lá a por os pontos nos ii. Pontos em muitos ii. I, de Insulto - o governo regional insultou miseravelmente toda a Madeira quando, num dia em que a terra ardia, os bens se perdiam e as vidas estiveram em perigo, a decisão mais importante do conselho de governo foi a do novo concurso para o 'aterro' da Avenida do Mar. Nem uma palavra para os que sofriam, nem um conforto para quem via o lume pelas portas adentro. O mesmo insulto que deixou o chefe de governo nas férias do areal, enquanto os incêndios devastavam tudo à sua frente. Foi no ano passado, para quem já esqueceu. I, de Irresponsabilidade - que é o que o chefe de governo melhor exemplifica quando exige à população limpeza de terrenos, mas fica mudo quanto à responsabilidade dos serviços públicos que também não limpam o que lhes compete. E que, além disso, deviam ser o exemplo. Basta subir e andar pelas serras e pela floresta e ver o estado em que tudo está. Ou só os privados é que têm culpa pelos verdadeiros barris de pólvora que são as florestas cheias de material e os silvados e canaviais secos? Não há terrenos públicos que estão ainda piores que os privados ao abandono? Claro que há. Mas é sempre mais fácil acusar os outros que reconhecer erros. I, de Inadmissível - porque inadmissível é a atitude do governo regional e da comissão regional de protecção civil que nos têm mentido sobre a existência, e respectiva aplicação, de um plano regional de emergência. Afinal não há plano nenhum e só deverá estar pronto em 2014. Esta gente sabia que mentia e nos enganava. E, pior ainda, sabia que punha em risco a segurança de todos. Sentirá algum remorso por tudo o que podia ter sido evitado? Custa-me a crer. I, de Insensibilidade - de quem tem disposição para jantar com dirigentes das trupes de carnaval enquanto o fogo não dá tréguas a ninguém. É preciso ter estômago! I, de Índole - o mesmo é dizer o temperamento, o carácter, de quem se apresenta numa festa de homenagem aos bombeiros depois de os ter insultado e de ter chegado, mesmo, a insinuar a sua responsabilidade pelo aparecimento de alguns incêndios. Tudo é muito, muito, baixo. I, de Incapacitado - e esta é a palavra mais suave para definir politicamente alguém que consegue ser tão mesquinho a ponto de não querer falar com autarcas nem com as populações sobre os incêndios que os fustigaram, num 'método de trabalho, que deu resultados durante 30 e tal anos'. Atreva-se, se tiver coragem para tal, a descer cá abaixo e a ouvir. Mas não o fará porque o que verdadeiramente lhe interessa é o resultado do 'método', não o bem-estar de quem o tem elegido. E muito menos o bem-estar de quem é seu opositor político. I, de Inexplicável - a substituição dos bebedouros da Avenida Arriaga em basalto e integrados numa linha de mobiliário urbano do Funchal, por umas coisas a imitar o antigo, sem escala e completamente desenquadradas do ambiente urbano onde foram postas. Acresce que essa linha de mobiliário foi desenhada por dois arquitectos, um dos quais recebeu este ano o prémio Alvar Aalto (que é, eu sei, coisa de pouca monta - um 'premiozito' que distingue arquitectos pelo seu contributo significativo para a arquitectura!). E eu aposto que Paulo David - o segundo arquitecto português premiado - recebeu muitos parabéns de quem, agora, lhe mandou destruir a obra. Mas esta é a sina do Funchal e infelizmente Paulo David não é o primeiro, nem será o último, arquitecto de reconhecida qualidade a ver o seu trabalho na cidade profanado pelo 'bendito desenvolvimento'. O ponto, o ponto está mesmo nos detalhes…
Violante Saramago Matos