Enquanto os Governos vão acabando com os direitos que custaram muitos anos de trabalho e de luta às gerações mais velhas crescem os apelos à solidariedade por todo o lado como se os custos da perda de direitos tivessem que ser pagos pelos solidários que, ao fim e ao cabo, somos quase todos nós. Eles cortam nos apoios sociais, nos salários, nos subsídios e nas pensões de reforma. Aumentam os impostos e os preços dos serviços e bens de primeira necessidade. As pessoas ficam com menor poder de compra e endividadas, muitas delas não conseguindo fazer face aos compromissos que assumiram quando tinham mais rendimentos. Ao mesmo tempo continua a crescer o desemprego e todas as formas de trabalho precário. Muitas pessoas estão preocupadas com a sobrevivência das suas famílias e fazem tudo para conseguir o mínimo de sustento. É o mundo do salve-se quem puder. Os patrões de muitas empresas e em muitos sectores não pagam os salários a tempo e a horas, e se em algumas, até pode existir alguma justificação pontual, na maioria é o aproveitamento da situação de crise que vivemos que leva ao não cumprimento da lei com muita benevolência das autoridades fiscalizadoras. Quem tem responsabilidades de pagar a renda ou outras prestações bancárias cai em incumprimento e fica ainda em pior situação. Para acrescer a tudo isto surgem situações inesperadas como foram os graves incêndios que assolaram a Região e que levaram ainda mais tristeza e mais pobreza a muitas famílias madeirenses. Para não variar o Governo Regional através do seu Presidente ainda vem insinuar que foram os bombeiros que se calhar por descontentamento reagiram à ofensa que lhes fez ao chamar-lhes de patas rapadas. No meio de tudo isto como reage a sociedade e as pessoas, afectadas ou não, por esta situação? Lançando campanhas de solidariedade todos os dias pelos mais variados motivos. Não vão à luta saindo à rua e reivindicando ao Governo o apoio a que deviam ter direito. Não exigem a quem entregam os seus impostos para assumir as suas responsabilidades. O Dr. AJJ pode passear-se à vontade no Porto Santo porque não existem manifestações na praia contestando a austeridade em que estamos a viver. É mais fácil e julgo que em alguns casos até é "chique" participar em jantares, almoços, caminhadas, peditórios, identificados e não identificados, etc…, tudo menos lutar. E a quem é que se pede ajuda? Às pessoas normais, àquelas que sustentam tudo com os seus impostos e muitas vezes as mais solidárias são as que menos têm. Basta ver as campanhas nos super-mercados para ajuizar do que estou a falar. A solidariedade é muito importante em situações excepcionais como foram por exemplo os incêndios, o 20 de Fevereiro e com são as campanhas de prevenção das Ligas por exemplo a da luta contra o cancro ou outras. Mas fazer campanhas a propósito de tudo, deitando para cima da sociedade as responsabilidades, que devem ser públicas, é na minha modesta opinião um erro porque não passam de caridadezinha que não resolve os graves problemas políticos e sociais que vivemos. Sei que esta é uma opinião que vai gerar polémica, mas não é para isso que existe esta página de opinião? Quem me conhece e quem me pede solidariedade até sabe que não costumo virar as costas, mas ainda sou do tempo que não havia direitos e as meninas pobres vestiam as sobras das meninas ricas e tudo estava certo. Não gostaria que o tempo voltasse para trás e por isso mesmo o meu apelo a que haja mais reação e menos passividade para que o que custou tanto a conquistar não seja definitivamente enterrado por estes governos de direita e que a caridadezinha de antigamente não seja predominante na sociedade até para que a verdadeira solidariedade seja dignificada.

Guida Vieira