Severino Olim Após um brilhante percurso pelo seminário diocesano do Funchal como um dos melhores alunos do seu curso de seminarista, Martins Júnior é ordenado padre em dia de festa da Senhora da Assunção, 15 de Agosto de 1962. De uma personalidade invulgar e de convicções incontornáveis que lhe permite acreditar e sustentar ideais pelos quais tem se debatido, sobretudo, contra o marasmo da miséria social e cultural que encontrou em 1968 na comunidade da paroquia da Ribeira Sêca. De uma ruralidade bem profunda a comunidade padecia de graves problemas nomeadamente sociais que coabitavam entre escalões etários diferentes, situação que à partida, abortava qualquer iniciativa capaz de infletir e romper com este tipo de iliteracia. Servida por veredas em terra batida como as do sitio do Pastel e da Calçada do Amparo eram, nesses tempos, as únicas vias de comunicação com ligação ao centro da freguesia de Machico. A escola primária local funcionava por turnos e em dependências sem as mínimas condições, sem chama e pouco apelativa, fatores que marcaram preponderantemente a falta de entusiasmo nos jovens e consequentemente o seu abandono da escola. Grande parte das casas da Ribeira Seca eram cobertas de colmo porque os rendimentos arrancados à terra não permitiam outro tipo de construção nem os senhorios autorizavam qualquer tipo de ampliação ou melhoramento. Perante esta miserabilista realidade, Martins Júnior não se resignou, nem abandonou a paroquia, nem voltou as costas ao povo da Ribeira Seca. Numa pastoral corajosa e interventiva arregaça as mangas e faz a radiografia aos problemas que mais afetam a população, constituindo para o efeito comissões de sitio como agentes de esperança e de dialogo com vista ao encontro de soluções junto dos governantes, principalmente para os problemas da colonia, das bordadeiras, da falta de luz elétrica, da ausência de agua canalizada e de estradas. A importância que atribui à educação e à informação pelo saber é de tal exigência que o leva a organizar no salão paroquial o funcionamento da 4ª classe para adultos. O entusiasmo e o sucesso desta medida foi de tal ordem que se propõe a reunir mais apoios e avança com este projeto até o antigo 5º ano. A nível da componente artística e musical Martins Júnior, nestes últimos 50 anos, promove diversas iniciativas no seio desta comunidade como o teatro, grupos de danças e de cantares, tunas de cordas (Tuna de Camara de Machico) e outras atividades que vieram enriquecer esta nova forma de estar e de ser do Povo da Ribeira Seca. A população passou a ganhar níveis de auto estima nunca antes visto, melhorando a sua capacidade interventiva, ganhando conhecimento, sobretudo, o conhecimento dos seus direitos para o exercício do desempenho de uma cidadania ativa e construtiva. Tornam-se cidadãos informados e esclarecidos reivindicando dos governantes locais e regionais a construção do seu primeiro caminho novo, luz elétrica, a agua canalizada e uma nova escola onde todas as crianças pudessem vencer os desafios do futuro, apreendendo a ler e a escrever. Queiramos ou não reconhecer, Martins Júnior , tem sido, para além de um pedagogo social e de um conselheiro de consensos de muitas desavenças familiares um soldado de trincheira, promotor de toda esta revolução social e cultural registada nestes últimos 50 anos na Ribeira Seca. Como membro do clero da igreja madeirense tem um percurso reconhecido por uns e detestado por outros fruto da sua inquietação permanente, procurando com que a sua comunidade siga um Cristo vivo e desapegado da cruz, contribuindo através da diversidade de ação e de pensamento para a unicidade da igreja, sempre em construção.