Apesar dos responsáveis governamentais, anunciarem repetidamente que a prestação de cuidados é uma prioridade e não esta posta em causa, a verdade é que num momento de dificuldades económicas e financeiras os sinais que vão surgindo, são preocupantes. Na região a contabilidade dos números, consolidados num programa de ajuda económica e financeira desajustado á realidade regional, sobrepõem-se á prioridade das políticas para o sector e á prestação de cuidados com qualidade e segurança. Perante esta inversão de prioridades, continua-se a insistir numa obstinada operação contabilística, anunciando com frieza para a opinião publica a vitória dos cortes alcançados, numa conjuntura em que aumenta dramaticamente o número de pobres e as necessidades em saúde. No país mais de 50% da população Portuguesa está em risco de pobreza. Num momento difícil para a população e para os trabalhadores, temos um Serviço Regional de Saúde, focado nos custos e nos seus problemas internos, com um ambiente laboral onde impera a ausência de diálogo, a imposição unilateral das decisões, um clima de intimidação, usurpação de direitos e coação, propiciadores de conflitualidade laboral, onde não se antevê qualquer estratégia a médio prazo com mais-valias para a população e a motivação dos profissionais. Os enfermeiros são um dos recursos mais valiosos e essenciais á prestação de cuidados com qualidade e segurança para qualquer sistema de saúde. A deterioração dos ambientes de trabalho tem-se caracterizado por uma progressiva sobrecarga laboral e o acentuar da crónica carência de profissionais nos serviços. O serviço Regional de Saúde ate ao final da última década, admitiu enfermeiros para dar resposta as necessidades em saúde da população. No ano 2007 a região tinha pouco mais de 1700 enfermeiros em exercício, e todos os indicadores apontavam para um crescimento progressivo ate atingir um valor superior aos dois mil enfermeiros. A verdade é que desde 2009 não são admitidos novos profissionais no Serviço Regional de Saúde, com vínculo estável. Desde 2008 aposentaram-se mais de 120 enfermeiros, juntando-se a estes a recente dispensa de um significativo número de enfermeiros em prestação de serviços, assim como um crescente número de profissionais que rescinde o contrato para emigrar. Em outubro de 2011 o SESARAM prescindiu da pratica do regime de horário acrescido, representando a redução de horas de trabalho correspondentes a 250 enfermeiros efetivos. Persistir em não abrir procedimento concursal de caráter excecional para admitir novos profissionais, perpetuando o quadro de carência, diminuirá as prestações, privará o serviço de saúde de profissionais qualificados, prejudicando o superior interesse público e o desígnio de quem governa. Anunciar publicamente dotações fictícias, utilizando para o efeito racios que nunca foram atingidos a nível regional, demonstra entre outros aspetos, um claro desconhecimento da realidade atual dos serviços e uma falta de visão estratégica para o Serviço Regional de Saúde.

Juan Carvalho - Enfermeiro