Talvez se deva, no célere e incerto século XXI, interpelar-se o tempo e os seus túmulos, a invisível linha que atravessa memória e amnésia. Solicitado por um sentimento trágico a um tempo histórico e actual (a desaparição da democracia da Grécia como da ideia de comunidade - europeia, humana), o mais recente livro de poemas de Hélia Correia, "A Terceira Miséria", ancora-se nos "protestos cívicos" decorridos em 2012: "O horror calou tudo, declararam. / Depois de Auschwitz / continuamos a falar, porém, sem ambição. / Nós, os emudecidos, / irmanados com os sem-terra, nós, / os futuramente esfomeados, / bárbaros com os pés no alcatrão, / bebedores de petróleo. Como pode / de novo a praça, / a Ágora, juntar-nos?" ("Indignação"; cf. "Público" de 21/01/2012). O livro de Hélia Correia pode ser lido como um só poema narrativo contemplando trinta e três andamentos, uma composição cíclica na forma de uma (quase) anti-epopeia. Esta trilogia inicia-se com a tão antiga quanto trágica pergunta: "Para quê, perguntou ele, para que servem / os poetas em tempo de indigência?" ("Ele") é Friedrich Hölderlin (1770†1843), autor da elegia "O Pão e o Vinho", que nos fala de outros como do nosso tempo, um mesmo mundo: "Mas nós, amigo, chegámos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem, / Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo. / Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar / Se estamos vivos, tanto nos querem poupar. / O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina." No movimento de retorno ao passado e de recriação do futuro que talvez só a literatura permita, Hélia Correia e Hölderlin dialogam connosco: "Em tempo de indigência", "nem sei que dizer", "nem que fazer entretanto" (confessa o poeta alemão); dois séculos passados, (responde a autora portuguesa): "E, sobre a indigência, não havia / nada a dizer, nada a fazer" . O que é?, então, a miséria, pensemos: "Sim, foi essa, / a primeira miséria, a deserção / dos deuses. A segunda, a sua morte" (neste momento entra no diálogo Friedrich Nietzsche"; 1844†1900), "não a morte / do deus crepuscular, / a morte, uma falência quotidiana / da limpidez, da arte e da divina / coloquialidade com o mistério / e com o semelhante, a que extinguiu, / como um sopro de fogo na planície, / ao mesmo tempo o vivo e o seu rasto". Num certo sentido, a segunda miséria é não a morte do(s) deus(ses) (depois da morte do panteísmo, a do monoteísmo), mas a morte de dias límpidos entre pares, homens e deuses, do que nos é claro e do que desconhecemos. Em incertos tempos, a terceira parte da trilogia dialoga intensa e tragicamente com o último poema de Byron - "On this Day I Complete My thirty-sixth Year" - e convoca (antes como hoje) "a arrogância / pela qual o ocidente se perdeu", porque "incendiámos tudo". Na narrativa do idealizado funeral de Byron (o poema foi escrito na sua última viagem à Grécia), com Hélia Correia esclarece-se o seu fim: "Que o meu corpo não seja / Levado, entregue a túmulo inglês. / Mas foi. Que pode um voto, que podia um último poema / o que pode o desejo contra a ordem?". Eis a miséria, a derrota do desejo, da palavra, do poema; eis a anulação, a do corpo, a da voz e a do solo que se deseja o acolha: "A terceira miséria é esta, a de hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. / A de quem não recorda.". No tempo e no território da amnésia, da palavra emudecida de que se faz o nosso anulado presente, o que é a poesia? a arte (a vida)? "De que armas disporemos, senão destas / que estão dentro do corpo: o pensamento / a ideia da polis, resgatada / de um grande abuso, uma noção de casa / e de hospitalidade e de barulho / atrás do qual vem o poema, atrás / do qual virá a colecção dos feitos / e defeitos humanos, um início". Humanos, semelhantes, o desejo, um sopro: "um início."

Diana Pimentel