O Caso Martins júnior volta a ser notícia e será sempre notícia porque, infelizmente, é a prova viva da forma retorcida de como a democracia funciona nesta terra e de como a Igreja foi e é uma aliada de peso de quem está no poder.

Não há outra forma de olhar todo o processo da Ribeira Seca que não seja a de uma completa distorção da realidade e das mais elementares regras que deveriam pautar a justiça dos homens e a justiça da Igreja, seja lá o que esta última for.

O caso Martins júnior prolonga-se no tempo pela única e simples razão de que não há caso nenhum para ser julgado. A inexistência de uma acção concreta ou de qualquer movimento tendente e solucionar o impasse é a mais cabal prova de que não existe nada em toda esta história que mereça uma punição, a não ser, é claro, a condenação de uma Igreja que serviu e serve, com dedicação dogmática, um poder que sempre se pautou por uma intransigência face ao diferente e face a quem se atreve a ter um pensamento e uma voz própria e não alinhada com as regras da maioria.

O grande pecado de Martins Júnior é ser um desalinhado, é não estar ao lado de quem manda, é o de denunciar, incansavelmente, a por demais evidente relação entre o poder dos homens e o poder de uma Igreja que vive encostada no conforto de estar com os fortes.

Martins júnior não é um Santo, nem um mártir, é um homem e essa é a única condição que reclama. Suspenso 'a divinis' desde a década de 70, o sacerdote da Ribeira Seca não recusa ser julgado, mas recusa, e bem, a auto-punição para alívio de quem não teve, nem tem uma razão para o condenar, mas que persiste numa perseguição que nada tem de divino, mas que transborda de leituras políticas. Leituras estas que deveriam estar arredadas de homens que representam uma instituição que, por natureza, não se devia misturar com o poder e a sua confessada tendência para perseguir os desavindos de um regime que se julga quase divino e, por isso mesmo, detentor do poder de castigar à margem da lei dos homens.