Há nalguma sociedade madeirense (sem se esgotar nela, naturalmente) uma tese simpática e apelativa, mas, infelizmente impraticável: algumas elites porventura a sentirem-se órfãos de um poder em fim de linha e completamente moribundo, encontram conforto numa solução que retira de cena a importância da democracia parlamentar e dos partidos que a constituem. Para esses, a solução para a Madeira reside numa espécie de reunião de "homens bons" capazes de, por si só, despidos de ideologia, de orientação para o bem colectivo, e baseando-se apenas na profunda e valiosa condição tecnocrática de cada um deles, mudar a Madeira e resolver o problema que o PSD criou e que atirou os madeirenses e portosantenses para o pior momento da sua história. É uma ideia idílica, engraçada e estimulante que até pode entreter muitas tertúlias e entusiasmar os mais estranhos quadrantes da sociedade. É também curioso que esta solução começou a ganhar muitos adeptos com o fracasso colossal das políticas e da governação jardinista. É aliás entre os ainda simpatizantes, declarados ou não, do maior partido da Madeira que esta maravilha da evolução das sociedades mais se faz ouvir. Mas é, obviamente, uma solução ingénua e sem possibilidade alguma de ser consolidada ou assegurar qualquer nível de eficácia aos objectivos propalados, apesar da enorme bondade do pensamento. Pelo mundo fora discute-se, com mais ou menos profundidade e mais ou menos intensidade, as fragilidades da democracia sobretudo pelos enormes problemas que apresentam os partidos que a consolidam. Mas é uma falsa questão. Na verdade, a democracia exige a existência de organizações que defendam interesses (sem sentido pejorativo).Ora, a democracia exige a existência de organizações desta natureza, chame-se partidos ou outra coisa qualquer. Por isso, o debate em curso enferma num vício simples: se concordamos que o sistema democrático é o melhor para assegurar o desenvolvimento das regiões e países, então não vale a pena substituir determinadas organizações por outras que não acrescentam nada de novo e que continuarão a representar interesses e talvez até bastante mais pulverizados. O que é indispensável, e onde reside a importância do debate é quais os caminhos para assegurar mais participação de todos os cidadãos nos partidos e designadamente das elites? Se for possível uma resposta eficaz a esta pergunta os partidos serão cada vez mais o espelho do que a sociedade precisa. Portanto, se há homens bons disponíveis na Madeira para ajudar na mudança, façam a intervenção nas organizações partidárias, pressionando-as também para representarem melhor o interesse geral. É isso a democracia. O resto é fogacho inconsequente.
Carlos Pereira, Líder parlamentar do PS-M