António Garcês (geógrafo) Pretendi desde logo apresentar-vos esta minha "experiência" mas sabendo que estas coisas da investigação policial não quer "atrapalhos", só hoje depois do DN ter divulgado a notícia, percebi que chegara o momento de escrever este meu testemunho. Preparava-me, na passada sexta-feira, para usufruir de uns dias no meu abrigo, às Pedras, na freguesia do Norte, conhecida de Côrte e baptizada de Ponta Delgada, depois de mais quinze dias na azáfama da cidade, quando uma fumarola a pouca distância do meu lugar indiciava o pior para o extenso manto de floresta que encima aquela bela freguesia. Os primeiros momentos foram de interrogação, os que se seguiram de reacção. Com um grito para o meu vizinho e amigo Ricardo que empoleirado na varanda do seu restaurante também procurava entender o que se passava ali perto, mesmo junto à estrada que liga a Boaventura, num ápice vimo-nos a correr em direcção ao foco. Ao chegar à escadaria em cujo cimo se iniciava, uma vez mais, um incêndio florestal, ouvi o meu amigo dizer: - O Caldeira já cá está! O Sr. Caldeira é o presidente da Junta de Freguesia de Ponta Delgada, pessoa que aprendi a respeitar pela sua entrega, afabilidade e sobretudo pela sua simplicidade. Vi este homem, a espadeirar o fogo, qual herói em frente de batalha com um ramo que a floresta lhe emprestou. Quis imitar o seu acto, mas limitei-me a ser sua sombra, perante tanta ousadia. Perante tamanha grandeza, verifiquei, uma vez mais, quão frágil é a floresta. Percebi que se os homens não estiverem atentos ela sofrerá muito mais danos, pois infelizmente nem todos gostam do seu verde de paisagem, da água que ela nos proporciona, da sombra que nos dias quentes tanta falta nos faz e de tantas coisas boas que nos oferece, sem grandes exigências de troca. De fogo posto se tratou, pois todos vimos os "artefactos" utilizados para tamanha barbaridade. Poderíamos estar mais uma vez a lamentar os danos incalculáveis de mais um incêndio, não fora a pronta intervenção de "homens bons", seguido pelo sempre e necessário trabalho dos bombeiros, desta vez no sentido de debelar qualquer possibilidade de reacendimento. Gostaria finalizar este meu testemunho, embora não querendo alimentar a polémica da utilização de helicópteros, dizer-vos que continuo pensando que estes poderiam ser sobretudo uma preciosa ajuda, na vigilância e fiscalização das áreas florestais. Desta vez ganhou a floresta, mas sobretudo ganhou o homem.