Não trabalho no centro do Funchal, pelo que, ao sábado, uma volta pelo íntimo da nossa cidade sabe-me sempre muito bem. Já não o fazia há algum tempo e entreguei-me a esse prazer neste fim-de-semana. Que sensação estranha! Procurava uma bolsa numa pequena loja da avenida Zarco e… fechada! Sigo para a avenida Arriaga para comprar um semanário e, onde está o quiosque? Alternativa, Cabana: "O Expresso? Ainda não chegou! Sabe que mais, agora mais vale nem vir, porque já perdemos os fregueses!". A volta continuou o suficiente para a nostalgia vir ao de cima. Lembrei-me dos vestidos de final de ano que fazia na costureira com o tecido cuidadosamente escolhido no "Último Figurino" e do frasco de Cacharel que comprava repetidamente na perfumaria "Aroma", na Câmara Pestana. Das sapatilhas "keds" brancas, então na moda, que namorei na sapataria "Cloé". Do requinte do "Balão Vermelho", com as manequins, sempre impecáveis, a sugerir páginas da revista "Hola". Da ansiedade por um novo ano de estudo, sentida ao balcão de madeira da papelaria "Condessa", enquanto escolhia a nova coleção de cadernos. A memória levou-me ainda mais atrás. Ao suave aroma a mel de cana do bolo escuro, que emanava na rua da Carreira, ao passar na "Felisberta". Ao Largo do Chafariz, onde a "Charles" se assumia como "a" sapataria. À inspiração na colorida montra da "Benetton", referência da minha geração de liceu, que servia de pretexto a mais uns rabiscos nas aulas… Os resquícios desses tempos passados, mais recentes ou mais longínquos, ainda aí estão. Acentuados, a cada dia que passa, por mais uma montra que, aqui ou ali, se reveste com folhas de papel pardo que teima queimar lentamente ao sol. Embora sem grandes expectativas para os próximos tempos, espero que a revitalização destes espaços comerciais chegue, enquadrada numa nova dinâmica de mercado. Aos comerciantes e à edilidade, um voto à resiliência, mas também à coragem para que se encontrem caminhos alternativos na criatividade, na diferenciação, na inovação, na flexibilidade. Para que o comércio da nossa cidade não definhe como as vitrinas abandonadas insistem em sugerir. E eu ainda serei desse tempo…
Fabíola Pereira, Gestora de Marketing