Durante quatro anos, ninguém quer saber deles, se foram campeões mundiais ou europeus, se tiveram condições de trabalho, se os subsídios foram pagos ou se o patrão os deixou treinar a horas decentes. Ou se estavam desempregados. São ilustres anónimos para a maioria dos portugueses, até chegarem os Jogos Olímpicos. Então, tudo muda. De perfeitos desconhecidos, passam a ser alguém a quem todos exigem resultados, mesmo sem perceber patavina das modalidades. E não chegam bons resultados, o mínimo que se admite... é a medalha de bronze, prata ou ouro de preferência.

Por mais ridículo que possa ser, até a comunicação social não especializada - a especializada muitas vezes até é pior - entra no delírio da medalha e não consegue pensar. E nem vale a pena explicar que um 16º lugar ou um 8º são excelentes resultados, face à realidade das modalidades. Não subiu ao pódio... foi um desastre.

Nos últimos dias, em que os portugueses conseguiram resultados de todos os níveis, bons, aceitáveis e fracos, ouviram-se barbaridades, da tasca à televisão, de bradar aos céus. Alguns foram ao ponto de, por exemplo, achar que o afastamento do Marcos Freitas, na terceira eliminatória do ténis de mesa, foi um desastre. De nada valeu explicar que o rapaz é 32º do mundo e já estava a um nível superior ao seu e teve um comportamento muito positivo.

Telma Monteiro falhou, foi eliminada na primeira ronda e passou, em segundos, de bestial a besta. De medalha mais do que certa a desilusão nacional. Até quem não faz a mínima ideia do que é judo teceu as teorias mais complexas sobre ‘esta malta que nunca ganha nada’. De nada vale explicar que a judoca do Benfica até já ganhou muito.

Nos próximos dias vai continuar tudo na mesma e ao longo dos próximos quatro anos vai repetir-se a ingratidão de um País deformado pelo futebol. Uma modalidade que ninguém deve ter reparado que nem sequer conseguiu um simples apuramento olímpico...