Mais do que uma cultura de culpabilização, porque esta pode fazer com que pague o justo pelo pecador, precisamos, urgentemente, de uma cultura de responsabilidade. Na Madeira, vive-se com medo de falar de responsabilidade: a do cidadão anónimo e a dos políticos e demais autoridades. Se algo corre bem, todos querem ficar com os louros e digladiam-se para ver quem teve primeiro a ideia, quem fez primeiro a sugestão, de quem foi primeiro a iniciativa, principalmente, ao nível politico; mas quando as coisas correm mal, ninguém é responsável, quando muito, existe uma "responsabilidade futura", nem é "existirá uma responsabilidade futura", pois quando lá chegarmos, essa responsabilidade não fará parte desse presente, será novamente empurrada para um futuro seguinte. Vejamos o exemplo dos recentes incêndios: é verdade que se procuram suspeitos, mas a responsabilidade deixa-se para um futuro incerto - da limpeza dos terrenos pelos respectivos proprietários; a um plano de combate aos incêndios actualizado que tenha em conta a nova realidade regional com as alterações climatéricas, que incluem verões muito quentes e secos; passando a melhores meios, mais apoios e a estudos para aferir se é necessário, ou não proceder à reorganização dos Bombeiros, etc. E, estas questões não podem ficar esquecidas durante mais anos, como ficaram de há dois anos até este verão. Não podemos esquecer as consequências tão nefastas e trágicas que estes incêndios tiveram no quotidiano de tantas famílias madeirenses que viram os seus bens serem devorados pelo fogo e quase perderam a sua vida. Devemos respeito e solidariedade a estas famílias, e estes passam também por não deixar cair no esquecimento o que precisa de ser feito para evitar consequências tão dramáticas no futuro! Por fim, a lei e respectivas penas para quem ateia fogo deliberadamente deve ser alterada e tornada muito mais pesada. Faço aqui um apelo a todas as forças politicas da Região Autónoma da Madeira para que unidas tentem com que exista uma alteração legislativa neste sentido. Aos Bombeiros, RG3, Segurança Social, Caritas Diocesana, Casa do Voluntário e a todos os anónimos que deram apoio no terreno às populações afectadas pelos incêndios, o meu Bem Hajam.
Raquel Fraga, Historiadora de arte