Esta deveria ser uma 'crónica de Verão'. Julho a acabar e Agosto a começar. A época de férias por excelência. A época em que gostamos de desligar o telefone e, principalmente, desligar das preocupações e do corre-corre do dia-a-dia. O tempo do lazer, de gozar o calor. Retemperar forças para mais um ano de trabalho. Mas Julho, este Julho, revelou-se um mês de preocupações acrescidas. Para a classe docente, à qual pertenço, com muito orgulho, foi o mês em que o futuro se apresentou negro para muitos de nós. Foi o constatar que em Setembro, o número do desemprego entre os colegas contratados vai aumentar, muito. Aqueles que durante meses acharam que os sindicatos só davam perspectivas alarmistas acordaram para a triste e nefasta realidade. Mesmo os colegas de quadro adormeceram professores e acordaram sem horários e sem turmas para leccionar. Vulgo, horários zero. Que país é este que se dá ao luxo de descartar profissionais, altamente qualificados, numa área tão carente de investimento de futuro? O que se está a passar com a educação e ensino em Portugal é inqualificável. É o matar do sonho. O sonho que desde sempre, acompanha, todos quantos, um dia abraçaram a docência como profissão. O sonho tão bem descrito por Sebastião da Gama. O que mais me choca é ouvir as justificações, de argumentação indigente, dadas por quem está a matar a Escola Pública, tanto no País como na região. Para esta gente, a educação e o ensino reduzem-se a uma única palavra: reduzir. Reduzir o número de turmas, o número de professores, o número de disciplinas e de horários. Este reduzir a eito, coloca em risco a qualidade da Escola Publica, compromete projectos e a inovação que se quer e precisa, o sentir e viver, com entusiasmo, a escola. O caminho traçado conduz, inevitavelmente, a uma maior pobreza cultural. É caso para perguntar aos responsáveis e aos seguidores deste pensamento, que cidadãos querem para o futuro. Horroriza-me mesmo, ouvir e ler, nos diferentes canais de televisão quanto na imprensa escrita, tantos 'especialistas' em educação tratar a Escola Publica com sobranceria. Sempre defendi uma escola pública de qualidade. Uma escola pública onde se pudesse ensinar e viver de mãos dadas com o sonho. Uma escola onde para além da aquisição dos conhecimentos científicos necessários, educasse para a cidadania. Que apostasse na formação cívica e no desenvolvimento do espírito crítico. Uma Escola Pública que garantisse não apenas o acesso mas, principalmente, o sucesso para todos. Aparentemente, este tipo de educação integral, parece não interessar ao ministro que ficou famoso pelo seu 'plano inclinado'. Tão inclinado que o retrocesso, em termos de sistema educativo, é avassalador. Não se consegue, nem à lupa, vislumbrar no seu discurso uma ideia, um fio condutor, uma estratégia, sustentável, para a educação e para o ensino. A política educativa que tanto defendia, antes de ser ministro, resume-se ao vocábulo cortar. E assim se mandam milhares de professores para o desemprego e compromete-se o futuro do país. E se acham que só falei de Nuno Crato e que todas estas tropelias só acontecem do outro lado do oceano, estão redondamente enganados. O Estatuto de Carreira Docente/RAM aprovado pela ALM no dia 25 de Julho é a prova provada.. Uma referência final: uma semana depois dos incêndios está mais que na hora de apurar responsabilidades. O cheiro a terra queimada, o desespero de quem tudo ou muito perdeu, obrigam a uma investigação séria sobre tudo o que se passou. Por respeito, por solidariedade e sobretudo pela prevenção! É hora, também, de darmos as mãos e juntos tentar mitigar a dor provocada por mais uma catástrofe. Nota: Este texto, como todos os assinados por mim, não respeita o Acordo Ortográfico de 1990, vulgo Novo Acordo Ortográfico.

Marilia Azevedo