Castigo dos deuses (certamente não terão motivos para aplicar tal sentença a um povo com a humildade de se assumir superior), excitações de piromaníacos em busca de fama de terroristas, irresponsabilidade de responsáveis conhecidos, ou mão criminosa de irresponsáveis desconhecidos motivados por estímulos só compreendidos na esfera das teorias conspirativas que, diariamente, se vão materializando em realidades cognitivas numa ilha aficionada em dialécticas de ficção cinematográfica. Não sei! Mas sei que os incêndios que estão a destruir as magnificas paisagens da Madeira (património económico único e insubstituível que tem de merecer protecção irrepreensível) e a colocar-nos a todos em risco, são incompreensíveis à luz de razões meramente naturais, na frequência cada vez mais recorrente e numa dispersão geográfica em simultaneidade a roçar a perfeição. Também já tenho dificuldade em perceber, racionalmente, todas as tragédias que se abatem sobre esta micro rocha a flutuar no meio do oceano, sem recorrer às teorias especulativas. Será que se deve ao mau planeamento e ordenamento do território, ao excesso e caos urbanístico, à falta de planos e acções preventivas, à falta de planos de emergência válidos, à falta de opções sustentadas no princípio do profissionalismo exigido a quem tem funções de elevado grau de dificuldade, à falta de meios de combate, ou simplesmente resultado do tal castigo dos deuses a um povo que se iludiu com a possibilidade de um enriquecimento artificial e fácil gerado pelos apoios externos e não pela consistência da sua real capacidade produtiva, construindo, nesta realidade factícia, distorções sociais, económicas, urbanísticas e paisagísticas que perigaram os equilíbrios construídos ao longo dos séculos da nossa história. Serão todas estas tragédias, a acrescer à austeridade económica, uma oportunidade de ganharmos a responsabilidade de um povo, não superior, mas maturo, com estímulos para aguçar a arte e o engenho que permitiu que as gerações anteriores nos brindassem com um patrimónios riquíssimo de activos paisagísticos, culturais e económicos que tanto nos enchem de orgulho. Sim, talvez precisemos da responsabilidade, da austeridade, do sentido das prioridades, da consistência das opções que nos permitam crescer devagar mas de forma sustentável e digna. Certamente com fogos e outras fatalidades, mas mais conscientes e responsáveis. Desculpem-me a especulação deste artigo, não devidamente sustentada, que resulta só do medo que os recentes incêndios me provocaram, sentimento que, provavelmente, muitos de vós partilham.
João Welsh