As ilhas e os ilhéus são componentes complexos dos enredos em que emerge o tema da insularidade, sobejamente tratado por diferentes especialidades da literatura. No caso particular da Madeira e dos madeirenses, a relação que se estabelece entre estes diferentes componentes é muito mais do que o mero resultado de um determinismo ou de uma opção geográfica, sendo cada vez mais recorrente aceitar-se, sem celeuma, a primazia das condicionantes ambientais na configuração das relações que se estabelecem entre as ilhas, os ilhéus e a temática da insularidade. Efetivamente, os atributos ambientais que atualmente tanto surgem associados ao fenómeno turístico das ilhas são também uma parte muito substancial do sustento de uma parte significativa dos ilhéus. Tenhamos em consideração os resultados preliminares de uma investigação recente, sobre os fatores mais valorizados pelos visitantes da Madeira, que colocou em plano de destaque os seguintes atributos: a beleza cénica, a natureza, os parques e os jardins da ilha. A elevada importância da beleza cénica, da natureza, dos parques e dos jardins da Madeira não são propriamente atributos que surpreendam, mas revelam como a âncora que prende o fenómeno turístico à Madeira é na sua essência ambiental; e face aos recentes acontecimentos trágicos, esta âncora só pode ser merecedora de uma renovada apreciação e, consequentemente, de planos de ação adequados, tendo em vista o respetivo reforço e melhoramento. Por experiência pessoal e profissional acredito nas potencialidades dos processos de aprendizagem, como mecanismos de desenvolvimento do potencial humano e do melhoramento das sociedades, logo, penso que as tragédias recentes não poderão traduzir-se em meras repetições cíclicas, condenadas a abrasar dias vindouros dos ilhéus. O esforço de aprendizagem decorrente do impacto da tragédia ambiental diz respeito a todos, cada qual na sua esfera de competência ou atuação, mas não pode continuar a ser uma experiência fragmentada, condenada a esmorecer no passar dos dias… até que novamente calcine pela repetição sem emenda. As perdas resultantes dos incêndios, por um lado, e o caráter estruturante da componente ambiental (para a sustentabilidade da Madeira) são razões mais do que suficientes para que -todos!- nos comprometamos e nos esforcemos a aprender, a melhorar e a defender o que é distintivo, identitário e socioeconomicamente vital, até porque a deterioração dos atributos pelos quais a ilha é procurada e valorizada pelos seus visitantes, a persistir, traduzir-se-á, inevitavelmente, no intensificar dos problemas globais da Madeira. Sobre as consequências dramáticas da falência ambiental, poderíamos falar sobre os inúmeros casos de esgotamento ambiental, que no passado votaram à esterilidade inúmeras ilhas, sobretudo, ao desperdiçarem as lições que advinham dos seus próprios excessos. Só que não vale a pena fazê-lo. Seria penoso e pouco proveitoso. Em vez dessa abordagem e pelo futuro, pensemos e atuemos perante às circunstâncias, mas não esqueçamos: Cabo Verde também já foi verde...

Ricardo Fabrício