Violante Saramago Matos A tarde vai a meio. O dia está cheio de sol mas hoje aqui, em Santa Cruz, como na Camacha ou em Gaula, o que conta é o negrume das nuvens de fumo dos incêndios. Ontem foi o Funchal e há 2 ou 3 dias que a Calheta arde. É do leste, dizem uns. Fogo posto, acrescentam outros. Nada disto é novidade e, no entanto, as mesmas perguntas sempre sem resposta.
O leste traz os ingredientes - calor, secura e vento, tudo em altas doses - mas tem a 'vantagem' de se fazer anunciar e, sabemos, é recorrente. Há fogo posto? Há. Com estas realidades, o que mais é preciso acontecer até que a prevenção seja assumida como o melhor meio de combate a incêndios? Porque é não se prepara um Sistema de Emergência para a Prevenção, sempre muito mais eficaz que 'ir atrás' do fogo? Conquistou-se território à floresta para construir casas sem preocupações de ordenamento, nem infraestruturas de apoio e salvaguarda. Porque é que a imensa maioria das áreas urbanas afectadas não tem rede pública de incêndios nem estruturas para armazenamento de água, o que obriga a deslocações para reabastecer os autotanques? Porque é que não há, em especial nestas alturas de elevadas temperaturas, corpos organizados e treinados que vigiem sistematicamente o território e que sejam, também, factor dissuasor para potenciais incendiários? Porque é que não se tomam medidas a sério para limpar as toneladas de canas vieira, mato e silvado, existente nas matas e na floresta, nos campos e em volta das casas, na margem das ribeiras e ao longo de estradas? Porque é que não se cumpre a legislação? Porque é que os meios aéreos são eficazes em todo o lado e não servem para a Madeira? Porquê? Já não se pode ouvir que "Estão no terreno os meios necessários para atender às necessidades"! Sempre a mesma arrogância, mesmo quando a resposta é tão insuficiente, como se tem provado. Porque os bombeiros não conseguem chegar a todos os sítios e por isso vemos tanta gente entregue, apenas, à solidariedade do vizinho do lado. Cabe aqui um imenso reconhecimento às dedicadas e incansáveis corporações que, apesar de maltratadas e desprezadas pelo poder regional, não olham para trás quando a sirene soa. Não me venham com conversas sobre a bendita oportunidade. Nunca é oportuno. Se há alertas, são os profetas da desgraça; se é durante os desastres, são os abutres; se é depois, são a canalha. Há sempre um insulto pronto para esconder a necessidade de chutar a bola para a frente, escondendo os problemas à procura de justificação para a incompetência e o desleixo. Venho de perto do fogo e, além do medo sem fim, há barulhos que ficam: as sirenes das ambulâncias e autotanques, as garrafas de gás a rebentar e as canas e o mato a arder por todo o lado. E o fumo que, como em tantos outros locais, ajudou a transformar a ribeira da Boaventura num caldeirão do inferno.