Mais uma vez a Madeira vive momentos de tragédia. Mais uma vez se nota a nossa fragilidade a vários níveis. Mais uma vez é evidente a tentativa de apontar para o lado em vez de encarar o essencial. E o essencial, neste momento, passa por acudir aos casos graves, ajudar as pessoas e ver o que se pode aprender com mais esta catástrofe. Até numa lógica de prevenção, para estarmos melhor preparados da próxima vez.
Ao certo, o que é que aprendemos depois dos últimos grandes fogos de Agosto de 2010? Creio que muito pouco. Dois anos depois ainda andamos a mandar palpites sobre os meios aéreos, a discutir formas de intervenção, a pensar se se deve ou não pedir ajuda, a tratar mal os bombeiros, a criticar quem pensa diferente e quem noticia catástrofes.
Se falar na necessidade de reorganizar os meios de socorro é sinal de exibicionismo de Miguel Albuquerque, então que se exibam muitos mais. Por muito incómodo que dê vale sempre a pena fazer reparos, deixar alertas, sugestões. E mal, muito mal mesmo, vai o Governo que acha que sabe tudo e afinal nem sabe ouvir. Já nem digo ouvir a Oposição, mas ao menos ouvir os seus. A começar pelos que não se limitam a abanar a cabeça de cima para baixo a tudo o que lhes dizem. Numa altura em que as labaredas ainda eram visiveis, quando os bombeiros ainda estavam no terreno, quando muitas famílias ainda estavam com o coração nas mãos, o membro do Governo que tem a tutela dos meios de socorro achou que a sua prioridade era emitir um comunicado contra a observação do presidente da Câmara do Funchal. Observação essa bastante pertinente, mesmo que incómoda. Afinal, se a Madeira mudou tanto nos últimos anos, por que razão não se deverá pensar num novo modelo de socorro? Só se for por comodismo.
Talvez o mesmo tipo de comodismo que nos impõe este baixar de braços perante as adversidades. São as enxurradas no Inverno, os fogos no Verão e o povo vai assistindo a tudo isto de ombros encolhidos, sem questionar. Importa saber se temos feito tudo, mas mesmo tudo, para evitar ou pelo menos minorar estas situações. Se a prevenção tem sido exaustivamente feita ou se apenas existe no papel. Se os meios que temos são os mais adequados ou não. Se o secretário regional que estranhamente tutela a protecção civil e a comunicação social se sente confortável com a falta de dinheiro para os bombeiros e os cinco milhões garantidos para dar ao jornal do presidente do Governo.
Está mais do que na hora de reorganizar muita coisa na administração pública regional. De questionar, de confrontar, de pôr em causa. Nem que seja para admitir que está bem como está se for esse o caso. É preferível ter de recuar a continuar nesta pasmaceira que se alimenta de águas paradas. As críticas e sugestões podem ser também uma importante forma de prevenção. Já encarar esses reparos como exibicionismo pode ser sinal de uma perigosa e negligente arrogância política.
E volto à questão central deste artigo: estaremos a fazer tudo, mas mesmo tudo, para evitar ou pelo menos minorar estas situações? Temos mesmo a certeza de que estão a ser tomadas todas as precauções? De que não são necessários meios aéreos? De que as torres de vigia funcionam correctamente? De que as matas estão mesmo limpas junto a aglomerados populacionais? Atrevo-me a deixar estas perguntas porque também já senti noutras alturas tamanhas certezas que rapidamente mudaram. Por exemplo, há um par de anos era pecado admitir que havia pobreza na Madeira. Hoje temos um plano regional para ajudar os mais carenciados e rapidamente se abriram portas para a instalação do Banco Alimentar.