Tivesse Romeu tomado o mesmo "suave veneno" que Frei Lourenço dera a Julieta e teríamos um final feliz, com os Capuletos e os Montecchios a prepararem a nobre boda. Tivesse Sócrates preferido a vergonha do ostracismo à dignidade de uma morte honrada e a cicuta não teria sido implacável no cumprimento da sua missão e Atenas ficaria mais sábia e Platão não chorava o seu Mestre. Mudam os tempos, mudam as vontades e hoje as Julietas e os Romeus vão ao "Bar do Frei Lourenço" na porta 68 do Bairro Alto, beber uns shoots e curtir a música trance dos Future Monkeys até que os "fumos" da madrugada aconcheguem novas paixões ou se esfumem velhos afectos. Também os Sócrates pós-modernos, enfrentam hoje a indignação popular na antiga Ágora de Atenas, a beber uma flute de champanhe com cassis, na esplanada elegante do "Bar Cicuta" na Rua Saint Honoré em Paris, bem próximo de "La Fontaine au Chocolat" n.º 210, onde a família Cluizel, que começou este abençoado negócio em 47 na Normandia, apresenta a sua célebre tablete de chocolate com 99 por cento de cacau, que só aconselho aos apreciadores mais experientes destes sabores divinos. Mas também os venenos de hoje já não nascem de fórmulas mágicas de alquimistas desgrenhados, monges em soturnos conventos ou bruxas más que não curtem a Branca de Neve e tropeçam nos anõezinhos. Hoje, os venenos são fabricados nos jornais e televisões, nos gabinetes dos partidos políticos, nos salões luxuosos da banca, nos corredores dos ministérios ou nas suites de hotéis de cinco estrelas. Depois, são vendidos entre duas tacadas de golfe, na espera de um cabeleireiro ou no "segredo" bem guardado da nossa justiça. Finalmente invadem as sarjetas das ruas ou escondem-se numa garrafa de Barca Velha à espera de uma vítima mais selecta e abastada. Mas a justiça divina nem sempre dorme e, de quando em quando, castiga estes ilustres e respeitados fabricantes de venenos. Obriga-os a beber do mesmo veneno com que 'estriquininaram' as suas vítimas! E é nesta cena do castigo divino, que entra o incontornável Doutor Relvas e os seus ajudantes. Com sábia ciência só ao alcance de um licenciado na Lusófona, envenenou o percurso "académico" do ladino Engenheiro Sócrates. O veneno começou logo a actuar e matou de imediato o Inglês Técnico feito ao domingo pelo Eng.º Sócrates. Foi tal a dose, que até chegou a corroer os três honestos anos de engenharia. Dizem os entendidos em política baixa que este veneno, embora não letal, diminuiu a defesa a outros venenos que já circulavam no seu organismo, como o Freeport, veneno fabricado na Amadora mas com ingredientes vindos do Reino Unido. E agora Doutor Relvas? Agora que o castigo divino o obrigou a provar o mesmo veneno que em tempos deu de beber ao Eng.º Sócrates, aconteça o que acontecer, pode ter a certeza que todos os jovens licenciados com muito esforço, sujeitos a exames rigorosos e provavelmente desempregados, desejam ardentemente que o veneno o mate politicamente… e para sempre. Se é verdade que felizmente a Região não tem importado este tipo de veneno 'relviano', consta que, há mais de trinta anos, misturado na poncha, existe um veneno particularmente perigoso. Nem sempre mata, mas tira a reacção às pessoas, começam por não ver ao longe e depois nem ao perto, a voz fica muda e presa na garganta. Mas, o que é mais grave, parece que a lucidez começa a ficar intermitente, até se esvair por completo. Mas porque estamos em verdadeira e pura Democracia, ninguém é obrigado a beber a poncha envenenada! Lembro porém aquela história de um viúvo em que as suas três primeiras mulheres tinham morrido por terem comido cogumelos envenenados. A quarta morrera também, mas por traumatismo craniano. Não tinha querido comer os cogumelos!
Manuel de Brito