Mesmo para um observador distraído, cada vez maiores são as semelhanças entre o atual governo e o anterior. Ambos fizeram exatamente o contrário do que prometeram em campanha eleitoral, ambos mostram a mesma falta de coragem ao afrontarem os grandes interesses instalados (caso das PPP's, EDP's e outros), ambos instalaram a rapaziada do seu interesse nos órgãos de gestão do país e no aparelho de estado, ambos servem o mesmo Deus, pese embora se verifiquem algumas pequenas diferenças em cada uma das suas liturgias. Arrogantemente, nenhum dos dois ouve nada nem ninguém, insistindo e persistindo nos respetivos erros, que, no governo anterior, nos hipotecou até à enésima geração, ao passo que o atual nos asfixia dia-a-dia, com a sua obstinação de se afirmar como aluno dileto da Sra. Merkel. Passos Coelho chegou ao poder com o seu arzinho "clean", transpirando seriedade e honestidade, fazendo a torto e a direito promessas de não agravamento de impostos, propagando alto e em bom som que jamais invocaria o passado como alibi. Convém recordar que o que nos pôs na mira dos mercados, foram as eleições provocadas pela demissão de Sócrates, devido à não aceitação por Passos Coelho do chamado Pack4, cujas medidas, então consideras excessivas, eram em tudo mais benévolas do que as foram, depois, tomadas. O PR, não deu por nada, não era nada com ele, não considerou que o não cumprimento promessas eleitorais é uma forma de fraude e que é da sua obrigação intervir. Do mesmo modo nada fez enquanto Sócrates hipotecava o país. Passos Coelho, a pretexto da necessidade imperiosa de salvação nacional e do compromisso com a troika, impõe a sua feroz agenda ideológica neoliberal. Para Passos, qualquer forma de estado é estado a mais. Considera que a gestão virtuosa está exclusivamente do lado dos privados, ao passo que a pública terá necessariamente de ser incompetente e danosa. Para ele, não tem de haver serviço público de saúde ou de educação. Peça a peça, retira ao público os meios necessários ao cumprimento da sua missão, para posteriormente o acusar de não prestar. Na saúde, cria taxas moderadoras nos hospitais levando os utentes a optarem pelos privados que as não têm, restringe a admissão de pessoal essencial à prestação de cuidados, aumentando substancialmente as listas de espera e diminuindo o número de atendimentos, quer acabar com as carreiras médicas, porque desta forma poderá colocar um médico recém formado (mais barato) a fazer as vezes dum médico experiente (mais caro). Deixará de haver de haver a desejável ligação entre médico e doente, passando o doente a ser visto pelo médico que calhar estar ali, aquela hora, pelo mais baixo preço. Na educação a situação não é melhor, criam-se mega agrupamentos de escolas com 4.000 e mais alunos, com 30 alunos por turma. Será que um professor pertencente a uma dessas escolas saberá sequer onde se situam fisicamente as outras escolas? A revisão curricular amputou o ensino básico de disciplinas essenciais, entre as quais a única que familiarizava os alunos com saberes, técnicas e práticas orientados para a vida ativa. Este governo combate o insucesso escolar com exames e para a educação tem apenas um objetivo: baixar custos. Qualidade, quem a quiser, terá de ir para o privado. As verdadeiras razões do insucesso, de ordem sócio económica e cultural dos alunos, não vêm ao caso. Por outro lado, o único elevador social ao acesso dos jovens, a educação, deixou de funcionar. Hoje estuda-se para o desemprego e para a emigração. Quando, a médio prazo chegar a pesada fatura desta política, Passos Coelho e "sus muchachos", serão impunes, já não estarão lá, serão todos CEO de grandes empresas, colegas de Ferreira do Amaral e de Jorge Coelho. Para este governo, tudo o que a administração pública faz é mau, ou demasiado caro, logo tudo tem de ser concessionado aos privados em "outsourcing", dos hospitais, aos consultores, à contratação de profissionais. Para privatizar as empresas públicas e RTP, contratam-se consultores externos escolhidos a dedo, não vá a Assembleia da República querer falar com eles. No dia 11, Passos Coelho ao ser confrontado com a decisão do Tribunal Constitucional relativa aos subsídios à Função Pública, sem pensar nem hesitar, adiantou logo a sua extensão aos trabalhadores privados, o que até vem a calhar, porque sempre há o novo buraco no défice para tapar. Este governo conseguiu passar a ideia de que o único caminho virtuoso para a ultrapassagem da crise consiste na supressão de direitos, liberdades e garantias. Esta opção é claramente ideológica, não é uma inevitabilidade. Para este governo qualquer contrato coletivo é para extinguir, qualquer vínculo laboral será para precarizar, qualquer direito é mentira. Deste modo os trabalhadores serão mais mansos, mais cordatos, dispostos a tudo por uma migalha. Repetir sistematicamente o mesmo procedimento e esperar com isso obter resultados diferentes, é perfeita estupidez. Aplicar sucessivamente medidas de austeridade e com isso esperar criar riqueza, para pagar a dívida, criar emprego ou desenvolver a economia, também é. O País, sem sombra de dúvida, precisa de arrecadar mais dinheiro, por isso tem de mudar o seu procedimento e ir buscá-lo onde ele está, tem de renegociar as desastrosas PPP's, tem de pôr as EDP's "com dono", tem de ir atrás dos milhares de milhões roubados ao BPN, e de quem dele lucrou em situação de favor. Necessita tributar as transações financeiras e as grandes fortunas. Isso teria a vantagem acrescida de moralizar o sistema, para que as pessoas sintam um mínimo de justiça e não a universal sensação de que façam o que fizerem, estarão irremediavelmente condenados. A relva continua reluzente e próspera à custa das costumeiras doses semanais de estrume, com a reiterada dose de confiança do PM. Lá se vai a aura de seriedade. O PR, pura e simplesmente não existe. Será que alguém o viu, lá para Pulo do Lobo?
Hélder Melim