Portugal sofreu um forte abalo com o fim do Estado Novo. Era um Estado "forte", mas com algumas regras de Direito que o distinguiam dos totalitarismos nazis e comunista. O Estado Corporativo, avesso a partidos, criou uma organização cívica chamada: União Nacional. Terminou os dias como Acção Nacional Popular - ANP. O Poder declinava na UN/ANP as tarefas que, na Europa Ocidental, cabiam aos partidos. A ANP propagandeava a sadia convivência patrão-trabalhador, dizia-se, base de todo o progresso. Esboroou-se o Poder em 24 horas. O reencontro com a Liberdade foi difícil e demorou dois anos. Os partidos políticos, com mais competências que a anterior ANP, e em Liberdade - grande conquista de Abril que acerta o passo do País com o Mundo Ocidental - adaptam-se aos novos tempos. A Liberdade, como já por diversas vezes se tem ouvido, não pertence ao partido A ou B. Ela é um trilho, um caminho, onde todos eles têm de forçosamente caber e, em conjunto, pugnarem para que seja uma realidade a frase: o caminho faz-se caminhando. Desculpáveis imperfeições acontecem. É verdade, porém, que alguns factos indecorosos que ocorreram na RAM, eram impensáveis no resto do País. Os Cidadãos Portugueses, ocupando outros espaços geográficos, nunca os aceitariam. Nós aceitámo-los. Vou tentar explicar porquê. Estabilizado o País, fizeram-se eleições regionais que ditaram uma vitória esmagadora do partido mais votado que logo se alcandorou a senhor absoluto da vontade dos madeirenses. Na ALRM, em crescendo, achincalha, ofende, prova que só a maioria tem neurónios. Ocorresse, metade daquilo que a ALRM viu e ouviu, na AR, e o País ter-se-ia levantado. Esqueço o respeito pela liberdade individual na formação da vontade colectiva do partido maioritário. Recordo apenas que, hoje em dia, há dúvidas na interpretação dos estatutos para convocação de um congresso. Como seria há trinta anos? Na ALRM, local privilegiado para, didaticamente, os eleitores se aperceberem como se formam vontades colectivas a partir de ideias diferentes, existe apenas enxovalho. Começa aqui o processo de degradação. Não, não foi o PND, nem o Sr. José Manuel Coelho quem deu o tiro de partida para o desprestígio da Assembleia. O caminho da Liberdade foi apropriado pelo partido maioritário. Assim manteve os outros partidos à beira do caminho, bem junto ao precipício. Esta estratégia conseguia duas coisas: ridicularizar os adversários aos olhos dos eleitores e, criar a ilusão de que a liberdade era de todos. Pescavam-se à linha verdadeiros sociais-democratas enganados que militavam noutros partidos. Dinheiro abundante, ao dispor de quem pensa que governar é sinónimo de mandar leva a sucessivas vitórias eleitorais. Com estes métodos, esquecendo que governar é também: prever, coordenar, orientar; consegue-se quase todo o resto. O resto foi deixar algumas vitualhas livres para garantir que, na oposição, havia quem estivesse disponível para a farsa de "pôr a Madeira em marcha". Trinta e seis anos depois, a implosão é eminente. No partido maioritário, submetê-lo a uma só vontade não está fácil. Dê-se a palavra aos militantes. O diabo é que não se tendo separado as águas entre partido e governo, as populações não entendem onde começa um e acaba o outro. Pior, o descrédito lançado sobre os outros partidos afasta-os dos eleitores. Assim dificulta-se a alternância, regra base da democracia. Vivemos uma situação comparável à dos Angolanos. Temos, em comum, um partido dominante e grande ganhador de eleições, dirigentes abastados, e um povo de patas rapadas, em diáspora pelos bairros de lata do mundo, tentando subsistir. Neste quadro negro, os nossos governantes sabem como colocar um foguetão em Marte, mas não arranjam uma pena de água para regar um pé de feijão, não honram os contratos-programa que assinaram, não garantem medicamentos a um hospital onde doentes e familiares desesperam, tão pouco sabem que falta comida nas escolas. Dava jeito termos os recursos angolanos, avalizavam algumas riquezas. Vai doer, mas vamos ter de viver pobres e em Liberdade. Expliquem isso depressa. P.S. Frau Merkel continua a furtar-se à sua visita à RAM. Já lá vão 152 dias desde que o seu concidadão, Klauss Friedrich, residente, há anos, na Madeira a convidou a visitar-nos. Os madeirenses não têm o prazer de o conhecer mas a empatia do alemão com S.Exa. o Sr. Pres. do GR, é grande. Klauss antecipou-se por uns dias à carta convite que o GR fez publicar no JM o que pressupõe tratar-se de um observador privilegiado. É hora de Klauss se dar a conhecer informando, em conferência de imprensa, a data da visita.
Gaudêncio Figueira