A notícia já era conhecida há várias semanas: o Bazar do Povo seria fechado e depois ocupado por aquelas lojas chinesas a abarrotar de coisas de duvidosa utilidade, vindas de um Oriente que vende barato necessidades que verdadeiramente não temos. No entanto, o choque de ver o histórico bazar encerrado só o senti esta fim-de-semana, ao ter de pisar o passeio e não as ripas de madeira daquele velho chão, tantas vezes percorrido, em várias idades e por várias razões.

As montras vazias, as portas fechadas, os avisos de "encerrado para obras", deixam este Funchal um pouco mais triste, juntam-se a outras portas que se fecharam, a ruas que ficam desertas, a pessoas que deixam de estar por detrás de coisas como balcões. Pessoas desempregadas, futuros interrompidos. Um, mais um, mais um, até se tornarem estatística imprecisa.

O Bazar do Povo era uma constância das nossas vidas, algo que se manteria ali, para nos abrigar da chuva, para nos situar, para percorrermos como rua familiar. O Bazar do Povo era mais do que uma loja, era cidade, nos seus recantos, nas máquinas registadoras, nos botões e fitas e lápis e cremes e bolas de Natal.

O Bazar do Povo fechou e eu encosto a cabeça ao vidro, a lutar com os reflexos do sol e da memória e,juro que, por momentos, vejo-me a passar, mão dada com a minha mãe. Oito anos, de óculos de aros de massa, calças de veludo riscadas, camisola com a Heide e sapatos abertos de tiras a anunciar um Verão. Paramos em frente ao balcão da retrosaria, a minha mãe pede fitas e rendas e botões. Escolhemos as duas e em poucas semanas estou de vestido branco até aos pés, a desafiar na vaidade uma fé que não tenho. Feliz por fazer a Primeira Comunhão, por ser o centro das atenções ,a saborear um bolo tão lindo com um cálice que tive de conquistar à fúria do meu irmão para, no fim, lambermos os dois o creme e descobrirmos um copo como tantos outros.

O Bazar do Povo também é isto: a memória e não é justo que nos seja ocupada, usurpada por objectos às cores e cheios de luzes que piscam, num folclore asiático que não tem a nossa infância dentro.