Em uma das suas recentes obras, o teólogo latino-americano J.M. Vigil perguntava: "Sobra-nos ainda alguma utopia? Ou resta-nos apenas o gosto amargo de mais uma decepção"? De facto, neste tempo de crise que vivemos e em que procuramos intervir como crentes ou simples cidadãos, preocupados com o destino do outro, encontramos segmentos importantes da nossa sociedade que criticam a preocupação política dos cristãos, o seu envolvimento com as questões sociais, e o absurdo - segundo afirmam - de misturar fé com política. Para estes segmentos da opinião pública e em especial para aqueles a quem a denúncia da teologia social incomoda, quanto menos criticas melhor, quanto mais ignorante e menos esclarecido for o povo, menos senso critico ele terá e, por essa consequência, menos discernimento de julgamento e capacidade de organização ele reunirá; favorecendo a comunidade da exploração, da impiedade e da exclusão social. Vem isto a propósito de uma ideia feita, que o Governo da República tenta transmitir como uma verdade absoluta, e que mais não é que um autentico absurdo. A propósito do Plano de Emergência Social que o Ministério da Segurança Social lançou hà alguns meses com o objectivo de minorar situações graves de crise nas famílias e na sociedade em geral, medidas, aliás, tão desgarradas e inconsequentes que nos fazem lembrar o tempo do assistencialismo da outra senhora e que não vão minorar em nada os fenómenos de carência generalizada que subsistem hoje em muitos lares portugueses e que estas (medidas) tentam colmatar sem olhar às origens destas situações que vão minando todo o tecido social português. Como corolário deste "Plano de Emergência" o Governo de Passos Coelho tenta lançar a ideia, pouco acolhida, que tal corresponde na prática a "uma ética social na austeridade". Ignora o Governo que as leis de mercado que favorecem o rico e prejudicam o pobre, as legislações de trabalho, como as recentemente aprovadas e que poderão entrar em vigor no próximo mês, "os contratos especiais", em que o trabalhador trabalha sem vínculo nem garantias, não são no seu todo, um traço de maldade diametralmente oposto ao que Deus projectou para que o homem fosse feliz? Para já não falarmos no gigantesco exército de desempregados, muitos deles sem qualquer cobertura social, dos idosos cujas reformas não chegam para cobrir as despesas de farmácia ou o mínimo de subsistência. Falar de ética social na austeridade é ignorar a miséria de um povo que se bate todos os dias para viver com um mínimo de dignidade. Será a ética social por parte deste Governo agradecer a paciência dos portugueses fustigados pela austeridade, como o fez o primeiro-ministro e que mereceu da parte de D. Januário Turgal Ferreira (um profeta do nosso tempo) um comentário duríssimo, e que se mostrou "profundamente chocado" com estes "agradecimentos" que por serem deslocados e completamente desinseridos do contexto, mais não eram que um gesto hipócrita dirigido àqueles que verdadeiramente sofrem as agruras desta austeridade sem ética, equidade e moral. É isto que revolta. Este cinismo dos que querem, através das panaceias sofistas, oriundas de falsas ideologias, encobrir a fome e a miséria do povo. Perante isto, há algo que branda aos nossos ouvidos: "Deus, onde estás? Cristãos, onde estão vocês?" Observando toda esta iniquidade, nós notamos o porquê de tanta crise. De uma crise ética profunda. Ora o que é a ética? É uma forma de etos, bom comportamento social, aceite por todos e cujas acções resultam no bem-estar de todos. A teologia moral define moral, sob o aspecto religioso, como uma conceituação mais ou menos semelhante. Na moral, é preconizado um comportamento conforme o que Deus impõe. Se nas leis civis temos os códigos e regulamentos (em geral desrespeitados pelas elites, ou interpretados segundo seus apetites), do ponto de vista da moral que emana de Deus, temos os mandamentos, e, mais abrangentemente, as exigências e as interpelações do Evangelho, a boa notícia que Jesus veio trazer. De tudo isto só podemos concluir que só a partir de uma sociedade com objectivos sãos é possível eleger, colocar no poder, homens honestos, com objectivos dignos e definidos, votados à causa do bem comum. Isso é difícil… dirão. Sim, é difícil, muito difícil, mas não é impossível. É preciso uma visão prática das coisas… O projecto de Deus prevê o ser humano feliz, vivo e realizado. É assim que vivem os nossos irmãos todos? Se não é assim, a vontade de Deus não está sendo feita. O que é preciso para mudar? Converse com pessoas de bem, de boas intenções e visão clara das coisas, como D. Januário Turgal Ferreira e talvez ainda haja saída para todos nós. Neste tempo de crise é cruel usar palavras feitas, lugares comuns, slogans ou sofismas para enganar as pessoas. As pessoas precisam de palavras de esperança e que de uma forma muito especial as respeitem, nos seus valores, nos seus direitos… Depois de tudo o que vos disse vem-me à memória uma reflexão poética das utopias de Neruda… ; "… podem podar as flores, mas jamais deterão a primavera…;"

Roque Martins