"Sentia que podia andar na rua mais impune". A frase é de José Pedro Pereira, ex-líder da JSD/M, e confesso que me chocou pelo que revela e pelo significado profundo que encerra.

Porque sentiu José Pedro Pereira que podia andar na rua mais impune? José Pedro Pereira não é bruxo, não adivinhou a impunidade. Aos 22 anos, é um simples aprendiz de feiticeiro a tentar imitar a impunidade praticada e exercida pelos verdadeiros bruxos.

O líder da jota pensou que podia andar mais impune porque cresceu a ver uma política e um regime de prepotência, onde a culpa morre solteira, onde a razão reside apenas de um lado e do outro residem os culpados, onde há uma verdade oficial e uma mentira colectiva dos desalinhados. Um mundo maniqueísta onde existe os que estão com o poder e os outros. E os que estão com o poder têm sempre razão, são imunes e impunes a qualquer crítica ou juízo de valor. Os que estão com o poder, fazem, julgam e não respondem por nada. Os que estão com o poder beneficiam dele, os que não estão são um alvo a abater.

José Pedro Pereira assistiu a tudo isto e, aos 22 anos, achou que queria ser assim: impune, imune, poderoso. José Pedro Pereira queria ser como os seus chefes. Queria ser como aqueles que ofendem, erram sem castigo, exercem o poder como coisa sua, mandam calar, tentam intimidar. José Pedro Pereira queria ser assim e, por isso mesmo, enfrentou a polícia, a crítica social, enfrentou até a educação que, acredito, lhe deram em casa. E fez tudo isto porque sentiu que podia fazer estando do lado certo, estando do lado do poder.

Este rapaz é o produto acabado de uma democracia doente, retorcida nos seus valores, espezinhada nos seus princípios. Este rapaz é o produto acabado de um regime com regras próprias, com vícios profundos e com uma peculiar visão do mundo e da moral.

Este rapaz é um rapaz que ainda chora, mas infelizmente não o faz por reconhecer que errou. Chora porque ainda não o deixam ser como ele queria, não o deixam ser como os grandes que tanto admira e tenta imitar.

Não há redenção no choro deste rapaz. O rapaz chora e promete voltar para ser o dono do partido e da Madeira, tal como o são os seus líderes e modelos. Para este rapaz, a democracia é um pequeno pormenor e o poder uma certeza. Por isso, quer voltar mais forte. Não quer voltar mis sábio, mais maduro, mais ponderado, quer voltar mais forte, porque é de força que estamos a falar. Neste rapaz, não são inocentes as palavras, nem os desígnios.