Já muito se disse e escreveu sobre as viagens do presidente do Governo, é verdade. Mas também é verdade que o tema é apetecível. Pelo enredo, pelas explicações, pelas agendas anunciadas à posteriori, por tudo o que isto revela.

Para além dos 11 dias fora à conta de quatro dias de trabalho em reuniões de duvidosa utilidade, para além do secretismo que envolveu tão imprescindível deslocação presidencial, nada ultrapassa em significado profundo as explicações dadas na hora da chegada, feitas em solo seguro e a coberto de perigosos terroristas prontos a atacar a importante figura em atentado natalício com renas-bomba na Lapónia.

Disse o presidente que faz segredo das suas viagens por razões de segurança e porque existem uns psicopatas que andam obcecados com a sua pessoa. Mesmo deixando de parte a análise psicológica de tais fobias, a declaração encerra uma inesperada confissão. Afinal, que razões teria para o medo o turista acidental em viagem de trabalho se não sentisse que, não acidentalmente, cometeu erros e omissões que merecem castigo.

Diz o povo e com razão, que quem não deve não teme. Ora, quem viaja em segredo por medo, teme e muito. Quem o confessa admite, pela primeira vez, uma culpa no estado a que isto chegou. Há pelo menos a dúvida de que o povo não está a comprar aquela tese de que os nossos males residem no continente, nas políticas de Passos e de Sócrates e, em última instância, na Europa da senhora Merkel.

Quem viaja em segredo teme que alguém já se tenha apercebido que vivemos um logro durante todos estes anos, que agora vamos pagar caro a factura do nosso suposto desenvolvimento e que, afinal, não existem almoços grátis, como tantas vezes se fez crer no repasto das inúmeras inaugurações que alimentaram a grande ilusão.

Quem viaja em segredo, já sabe de tudo isto e do muito mais que ainda nos espera.

A propósito, também já percebemos que a Europa não paga nada sem exigir de volta. Portanto, não existem almoços, nem viagens grátis. O momento exige verdade e responsabilidade. Dispensamos a Lapónia e, para que conste, há muito que deixámos de acreditar no Pai Natal.