Manuel Viveiros Velha já de quinhentos anos, ainda hoje continua viva a estrofe de Luís de Camões, quando comenta a mediocridade do nosso rei D.Fernando, feito com o regime castelhano: "um fraco rei faz fraca a forte gente". O mesmo se passa com a cultura: nas mãos de incultos até os mais preciosos tesouros caem ao chão. Foi esta a minha conclusão a propósito da recente visita do bispo do Porto à Madeira. Um homem considerado publicamente como mestre em História, acurado investigador, com obra publicada, detentor do "Prémio Pessoa", predicados mais que suficientes para trazer até nós tesouros de sabedoria sobre os 500 anos da diocese do Funchal! Mas o que é que se viu? Um repetido contador de estórias, a debitar invariavelmente e por três vezes seguidas a mesma trama da sucessão dos bispos da Madeira desde 1514. O mesmo disco de 60 minutos na Ponta do Sol, em Santa Cruz, no Funchal, seguidos de outros 60 m ou mais para cantigas e bailinhos, perante um homem que, além do cansaço da viagem, ter-se-á sentido humilhado, como que a perguntar: "mas foi para isto que me trouxeram à Madeira?". A culpa não foi do bispo Clemente, foi de quem organizou o programa, de quem o convidou. Perdeu-se uma oportunidade única de perguntar, de aprofundar, de saber mais numa área em que é mestre. Certamente era isto que ele e nós esperávamos. Mas o colega anfitrião não permitiu. Foi notória a preocupação do bispo do Funchal em interceptar qualquer hipótese de diálogo após o discurso do orador, dando imediatamente lugar às canções e ao folclore. É o que temos. Serviram-se do convidado para dar nas vistas. O intelectual e historiador terá levado para o São João do Porto a convicção de que na Madeira, ao lado de um João dos adros, também há um Tónio das festas. Parafraseando, "um inculto… faz inculta a sábia gente" Merecíamos mais. Madeirense que sou, peço desculpa ao bispo convidado.