Juvenal Pereira - O Sr. Presidente mandou-me chamar? - Entra, temos de conversar. Eu ando muito desanimado com as minhas pregações no adro. Não sei se será bem assim, mas parece-me que o povo está a fugir de mim. - Isso é impressão, as pessoas mantêm-no no coração. - Não. Cada vez são menos os que me prestam atenção. - Se porventura acontece isso, só pode ser devido à…crise! - Mas que diabo tem a ver a crise comigo; com aquilo que eu digo? - Tem muito a ver. - Antigamente, enquanto o Senhor presidente falava, muita gente enchia a barriga com poncha, vinho seco e espetada, agora, com a barriga a "dar horas", as pessoas ficam…desmotivadas! - Se é essa a justificação, no futuro, no adro da igreja que eu falar, vamos pôr uma barraquinha com bebida e algo para petiscar! - Não sei se todos os senhores padres vão deixar. - É verdade, ainda temos essa volta a dar. Podes crer que se eu tivesse influência mudava esses "três" de paróquia com a máxima urgência. - O Senhor presidente fazia muito mal…eram mais três freguesias que deixavam de receber e ler o nosso jornal! - Oh, diabo, nisso ainda não tinha pensado. Mas está a ocorrer-me uma ideia que pode ser a solução. Tal se pedíssemos ao senhor bispo para que eu a seguir à missa - mesmo dentro da igreja - fizesse a preleção. - Sim. Como os púlpitos não são usados desde algum tempo para cá, o senhor presidente falava de lá. E no final da celebração em vez do sacerdote dizer. " Ide em paz e o Senhor que vos acompanhe" dizia: "Fiquem em paz e que o Senhor não deixe que ninguém vos trame". - Sim, por mim, podia ser assim. - Contudo, apesar de notar que o Senhor bispo é uma pessoa condescendente, penso que não deixa que o Senhor presidente fale no interior da igreja. - Não vejo onde está o mal. O povo fica melhor acomodado, sentado, o pior talvez seja mantê-lo acordado. - O problema não está aí, mas no que se diz por aqui. Nas bocas do povo em cada político há um mentiroso. Ora, uma mentira dita no adro é um pecado, mas proferida no interior do Templo, perante as imagens de Jesus e sua mãe Virgem Santíssima, além de pecado é uma falta gravíssima. - E para expia-la terei de cumprir uma pena altíssima? - Provavelmente ter de se confessar, comungar e ir todos os domingos á missa. - Que Deus me livre de semelhante castigo…já bastam as procissões e as missas a que estou comprometido. - Então, Senhor presidente, o melhor é deixar as suas pregações mais para a frente. - Não te entendo… - Para que tenha muita gente presente, musica, comes e bebes no adro e tudo pago, deixe as suas pregações para a seguir às "Missas do Parto". - Vou dar pelo teu conselho. Muito obrigado.