"Suponhamos que queremos organizar a sociedade portuguesa: como a organizaremos? É evidente que o problema da organização se divide em três partes, uma das quais compete ao teórico, e as outras duas ao prático. Temos, primeiro, a determinação do plano ou normas, segundo o qual se vai organizar; temos, depois, a colocação, nos lugares que lhe competem, dos homens competentes que hão de efectivar, na prática, essa organização; temos, por último, a coordenação dinâmica dos esforços desses homens, a maneira especial de pôr a organização em marcha. A primeira parte é de pura teoria: a segunda e a terceira pertencem já à prática. Para a primeira não há senão regras; para a segunda e a terceira não há outra regra senão a realidade, sem outra norma, na segunda parte, senão a instituição na escolha dos homens, e, na terceira, o espírito prático de coordenação de esforços (…) É evidente que a organização reconstrutiva a dar a uma sociedade, onde se deu uma ruptura de equilíbrio, varia consoante uma ruptura de equilíbrio por superprogressivismo, ou por supertradicionalização. (…) A base mental da supertradionalização é a falta de educação e de vitalidade do espírito, no geral do povo; e nas classes desnacionalizadas, uma educação escassa e viciada. A base mental do desequilíbrio oposto é, em todas as classes, uma educação viciada, de onde deriva a acção excessiva de umas e a reacção violenta de outras. Ora o resultado físico de uma falta de educação é a ignorância, a estupidez, a falta de interesse, a carência de atenção e de vontade; o remédio a empregar deve atingir, portanto, directamente as qualidades intelectuais, deve ser de ordem a produzir uma transformação mental da maioria do povo, de todo o povo mesmo, pois, produzida que seja na maioria apática, esta ou vitaliza ou esmaga a minoria desnacionalizada. (…) Na supertradicionalização, a decadência revela-se directamente pela estagnação e o atraso (…) No superprogressivismo, a decadência revela-se directamente pela anarquia e a desnacionalização…". * Quem escreve assim não sou eu, com muita pena minha (como devem imaginar), mas Fernando Pessoa, num texto quase centenário, publicado no jornal Acção (nº 1, 1 de Maio de 1919). Da leitura do escrito com inegável pendor sociológico, percebe-se como a prevalência da leveza das ideias, dos diagnósticos e das acções não ficará por boas razões na História. O retrato sociológico do país que Pessoa nos fazia há 93 anos, apesar das transformações ocorridas desde então, mantém-se íntegro na actualidade, em demasiados aspectos, digo eu. Relembra como a permanência inconciliável de algumas variáveis-chave da nossa existência colectiva nos condiciona. Quer por supertradicionalização, quer por superprogressivismo - tendências entranhadas e oscilantes entre nós - temos perpetuado o esquecimento estrutural: de que "a sociedade portuguesa é, primeiro sociedade, e depois sociedade portuguesa". E só depois de ser sociedade e sociedade portuguesa é que pode ganhar e potenciar as restantes dimensões. Até parece que perdura a incompreensão das regras elementares da construção da realidade social, ficando repetidamente por reparar, como seria desejável,o erro que representa asecundarização do primado da existência colectiva. A minha dúvida, no entanto, reside em saber se ainda vamos a tempo de repará-lo. Não quero deixar de acreditar que sim, mas tal como estabeleceu Pessoa, primeiro, urge ajustaro rumo, depois, juntar os mais capazes, e, por último, à luz dos esforços combinados, fazer a síntese. Há outra forma para desencalhar desta avassaladora supertradicionalização? * Texto escrito pelo autor, excepcionalmente, de acordo com a antiga grafia.
Ricardo Fabrício