É verdade que o futebol não resolve os problemas do país. Que é, aliás, um dos espelhos de assimetrias sociais, com sabor de injustiça. Mas há poucas coisas que mexem connosco como a bola. E para os que se chocam com o facto de haver gente disposta a sair para comemorar na rua a cabeçada de Cristiano Ronaldo, que pôs Portugal nas meias finais do Europeu de futebol, quando são incapazes de o fazer na altura de afirmarem os seus direitos, aconselho-os a pensarem no copo meio cheio desta vez.
Ainda bem que ainda há alguma coisa capaz de tirar o povo do marasmo. E que há um país que se comove a ouvir o hino, tanto faz se num estádio de futebol, se na Assembleia da República, cantado por Paulo de Carvalho por altura da comemoração da revolução dos cravos. É sinal que ainda estamos vivos. E o futebol é emoção, não me venham com racionalidades, que nada explica a alegria explosiva colectiva da comemoração de um golo.
E é por isso que hoje eu podia falar de tanta coisa. Do Bazar do Povo que vai ser mais uma loja chinesa, das viagens secretas do presidente do Governo Regional, que tem todo o direito de ir de férias quando quiser, mas o dever de informar que está no seu gozo. Do embaraço que Alberto João Jardim é para o próprio partido em Lisboa, obrigando-o a agarrar-se a questões de forma para não falar no cinco milhões que o líder do Governo Regional gasta (e que é nosso) por ano no Jornal da Madeira para manter esta terra ‘nesta linda brincadeira’. Até podia tentar encontrar diferenças entre ‘doutores’ e ‘patas rapadas’.
Ou debruçar-me sobre a Madeira real, aquela que teimam dizer que é nova, mas que, a meu ver, cheira a mofo de antigamente. Dos cafés cheios de mesas vazias, à espera de turistas que não chegam. Dos desempregados da construção civil que deambulam perdidos entre o desespero e um copo de vinho seco para afogar mágoas. Do custo de vida que sobe galopante, a um ritmo superior ao do país, quando o poder de compra cai a pique.
Podia falar do descalabro, mas hoje, ninguém quer saber. E, bolas, isso não é condenável. O IVA, o IRC e o gasóleo não desceram. Mas estamos nas meias finais do Europeu e já sonhamos com uma final frente à Grécia, para calar os Estados ricos e vingar 2004. O futebol afinal também pode ser diplomacia. E chapadas de luva branca.