Terminou a primeira fase do Euro’2012 e as expectativas não saíram nada defraudadas. Não me refiro apenas a Portugal, que passou com vida no ‘grupo da morte’. Depois de ter participado ‘in loco’ nas fases finais de 2004, em Portugal, e de 2008, na Suíça, assistir a este grandioso espectáculo apenas pela TV é também outra forma agradável de desfrutar do futebol ao mais alto nível, algo compatível com férias fora de época e com o privilégio de poder dispensar momentaneamente a actualidade de um País e de uma Região nas ruas da amargura. É sintonizado noutras prioridades e ‘preocupações’ que partilho estes pontos de vista sobre o Europeu de Futebol.
Críticas a Ronaldo
Depois do regresso de Cristiano Ronaldo ao seu nível normal, parece que ninguém fez críticas aos seus dois primeiros jogos. Só vejo perguntarem: onde estão os críticos? Da minha parte, que há oito dias escalpelizei alguns pormenores que Cristiano Ronaldo faria bem em evitar, nunca pus em causa a valia do melhor jogador português de sempre. Compreendi, e compreendo, que nem sempre tudo lhe sai como quer e como merece. Até porque muitas vezes a culpa nem é dele: basta ver quando o obrigam a desgastar-se em missões defensivas – um contra senso em qualquer circunstância; ou quando lhe exigem que “passe a bola” – o que ele faz com uma perfeição invejável – quando todos sabemos que na esmagadora maioria das vezes a coisa só se resolve se ele for o individualista virtuoso que é. Escrevi, e volto a escrever, que a tolerância dos adeptos pontualmente descontentes seria um pouco mais generosa – se é que isso lhe interessa – se CR7 cuidasse de pequenos detalhes quase insignificantes: cumprimentar todos os árbitros no início da partida (fê-lo no último jogo!), ter um gesto para com os espectadores ou evitar falar de Messi num tom que soa sempre negativo. Quanto ao resto, pode haver quem aprecie o futebolista Cristiano Ronaldo tanto como eu. Mas mais do que eu, desconfio.
‘Blackout’ português
Nunca apreciei os ‘blackout’ de jogadores e de equipas. Talvez porque se tornaram moda numa altura em que o FC Porto se servia dela para esconder e contornar as desonestidades que estão devidamente documentadas no ‘YouTube’. Mas tenho de admitir, desta vez, que os jogadores portugueses exerceram um direito que lhes assiste – quem não sente, não é filho de boa gente. Gostei particularmente da argumentação trazida a público pelo dirigente Carlos Godinho e pelo jogador Raúl Meireles: todas as opiniões são admissíveis, todas as críticas têm o seu espaço e os jogadores não pretendem que elas deixem de existir; os jogadores quiseram apenas demonstrar que não concordavam com elas e escolheram uma forma adequada para o fazerem, já que não faltaram a nenhum compromisso. Não falaram apenas quando não eram obrigados a tal. Bem jogado.
Paulo Bento
Também nunca fui grande admirador de Paulo Bento, na versão treinador. Mas agora, independentemente do que vier a conseguir neste Euro’2012, passo a considerá-lo um pouco mais. Comecei a fortalecer esta posição quando o seleccionador se manteve firme e coerente nos casos Ricardo Carvalho e Bosingwa. Um líder teria que fazer o que ele fez: perante a ameaça de desautorização, deu tempo e oportunidade para a retractação pública. Os jogadores visados preferiram outra atitude e escolheram o único desfecho possível. Agora, durante o Euro, depois de alcançado o objectivo a que se propusera – passar aos quartos-de-final – Paulo Bento manteve-se igual e chamou os ‘bois’ pelos nomes. Gostei particularmente da caracterização que fez do povo português e da nossa tendência sempre miserabilista. Se tivesse sido o Felipe Scolari a ‘descobri-lo’, estávamos todos encantados, a abanar a cabeça a concordar.
Queiroz e Manuel José
O maior ‘bluff’ no universo dos treinadores voltou a dizer asneiras sobre a Selecção de Portugal. Nota-se-lhe que nunca vai perdoar o início da derrocada espoletada por Cristiano Ronaldo, ainda decorria aquele Portugal-Espanha no Mundial na África do Sul. “Assim não vamos lá, Carlos!” reclamou o craque madeirense, quando o treinador-bluff praticamente o colocou a jogar a defesa-direito num jogo que era para ganhar. Depois foi o que se viu. E o que se continuará a ver, sempre que puserem um microfone à frente do ‘campeão das indemnizações’. A sério: façam o exercício simples e descubram se houve algum clube ou selecção em que Queiroz tenha cumprido o contrato. E analisem porque os dirigentes optam sempre por escorraçá-lo, nem que tenham de pagar vergonhosas indeminizações. Manuel José é outro género. Como dificilmente lhe darão o estatuto ‘faraónico’ que gostaria de ostentar, vai continuar a espernear, com a ‘caravana’ sempre a andar. Tolera-se. Que não venha outro mal ao mundo.
Meios tecnológicos
Alguns comentadores profissionais tiveram o mérito de adiantar: as arbitragens do Euro estão em muito bom nível, mas quando surgir um erro clamoroso logo aparecerá alguém a reclamar a introdução de meios tecnológicos no futebol. Dito e feito, após a não validação do golo da Ucrânia frente à Inglaterra. O disparate continua actual, mas ainda ninguém explicou: depois de corrigida a verdade desportiva com ‘chips’ e mirabolantes paragens nos jogos para ‘rebobinar’ a vídeo-gravação das jogadas polémicas, será que se vai exigir a colocação de ‘chips’ no jogador que falha um golo escandaloso ou no treinador que faz uma substituição que não lembra ao diabo? Um jogador tipo-Nuno Gomes, até quantos ‘chips’ poderia albergar? Vão mas é bugiar com as tecnologias. Futebol é falhar e acertar, quando menos se espera. Se querem outra coisa, vão a uma loja da Sony.
Os jogos que faltam
Aproveitando que ainda não introduziram as tecnologias que reduziriam o futebol à coisa mais insonsa e dispensável, vou atrever-me a uns palpites ‘não tecnológicos’, logo falíveis, agora que se iniciam os ‘quartos-de-final’ com um electrizante Portugal-República Checa. Creio que Portugal vai finalmente derrotar a França na ‘meia-final’, o que significa que vamos despachar antes os checos, tal como os franceses – grande equipa! – o farão com a Espanha dos ‘rodriguinhos’, com muita parra e pouca uva. A Alemanha volta a ser Alemanha e os gregos de Fernando Santos vão mesmo à vida. Quem cairá aos pés dos germânicos nas ‘meias’ serão os italianos, depois de eliminarem os ingleses no domingo. Tudo isto para vaticinar um Alemanha-Portugal na final do Dia da Madeira, com um madeirense a erguer o caneco e Queiroz a procurar uma esquina áspera para se coçar. Vai uma apostinha?