Nesta ilha onde vivemos são muito estranhos os conceitos de democracia e de preocupação social. Impostos a taxas nunca vistas; mais de 21 000 desempregados, com valores à volta de 52% no que respeita à população jovem; inevitável redução de postos de trabalho na administração pública; pagamento disfarçado de taxas nas urgências hospitalares e cortes em todas as áreas ligadas à saúde; fecho de empresas à média de duas, em cada 3 dias; fome disfarçada; dívida pública de milhares de milhões de euros (fica sempre a dúvida do que ainda poderá estar escondido) - num dramático e aflitivo agravar das condições sociais de famílias e empresas. Podiam somar-se os previsíveis cenários de degradação ambiental e de equipamentos, agora que falta dinheiro para pagar e manter em boas condições as monumentais obras das Sociedades de Desenvolvimento, sempre de retorno prometido mas nunca concretizado - situações que inevitavelmente implicarão mais custos sobre o erário público. À custa das pessoas, portanto. Ainda assim, o poder não se coíbe de provocadoramente declarar que não se preocupa com as consequências da falta de dinheiro. É preciso ter muito descaramento! É mais que visível que este regime se esboroa todos os dias um pouco mais - um jardinismo de um homem cada vez mais só, a quem sempre faltou a estatura e o estatuto de estadista limitando-se, num óbvio exercício de satisfação de interesses de grupos económicos, à pequenez do curto prazo, sem estratégia de futuro e visão lúcida e avançada. Um homem que mente com a mesma facilidade com que respira, já criticado por muitos dos seus, sucessivamente vaiado um pouco por toda a parte, mas sempre num delírio de obstinação e de manutenção de poder absoluto e dominador. Que a realidade é esclarecedora. Nesta ilha onde vivemos, D. Manuel Clemente, bispo de Porto, quando questionado sobre a situação da Madeira, disse «Sobre isso não me vou pronunciar, porque efetivamente não conheço e já não venho à Madeira desde que entrou cá D. António Carrilho…». Sempre inequívoco nas suas posições D. Manuel não opinou sobre o que se passa na Madeira, apesar de se mostrar conhecedor da falta de liquidez da Europa e da situação da Grécia, da Espanha ou da Alemanha - países onde, 'seguramente', o bispo do Porto se deslocou, para conhecer as respectivas realidades. Apesar de ter acesso a informação sobre a situação europeia, não conseguiu saber o que se passa numa região portuguesa! Bastava ter perguntado ao presidente da Cáritas na Madeira, que ele lhe daria conta das razões de uma «revolta latente» à espera de um «clique». Ou, simplesmente, o bispo do Porto nos propôs decifrar uma charada: 'não me façam perguntas a que não quero responder por diversas razões, entra as quais a eterna situação do Jornal da Madeira'? Sintomática, mas lastimável, esta colaboração do silenciar colectivo do comportamento do principal responsável pelos imensos problemas que nos sufocam. Nesta ilha onde vivemos, depois da infeliz morte de uma bebé na sequência de um brutal acidente de carro, são destacados elementos da Brigada de Intervenção Rápida da polícia para a Urgência do hospital, provavelmente para 'controlar' os familiares. Não seria mais útil, e sobretudo muito mais humano, em vez da polícia anti-motim, convocar uma equipa de psicólogos para apoiar uma família desesperada e legitimamente inconformada? Esse, sim, seria o comportamento de quem se preocupa com as pessoas. Nesta ilha em que vivemos, os partidos da oposição parlamentar assumem exigir o cumprimento das regras de funcionamento das instituições (a começar pela Assembleia Legislativa) da Região, enquanto parte integrante de um Estado de Direito, e assinam um 'Pacto pela democracia'. Mas fazem-no na rua. Que o presidente da Assembleia considera que aquela não é matéria que caiba naquela casa, apesar de ser a sede primeira do Estado democrático. Possa esse dia ser o primeiro de uma mudança. Tenham os partidos a noção da dimensão do compromisso assumido e saibam cumpri-lo. Os partidos, e os cidadãos que somos todos nós. Para o bem desta ilha onde vivemos.
Violante Saramago Matos