É a habitual fuga para trás. Quando há tanto inventário para fazer – da actualização da dívida pública, das facturas ocultas, dos encargos assumidos e não pagos, das carências sociais, das vulnerabilidades das famílias face à implacável carga fiscal, das limitações da justiça social e fiscal, das escassas e inexistentes medidas para impulsionar o emprego e alavancar a economia, do património e da obesidade mórbida de alguma administração pública – eis que a Assembleia Legislativa da Madeira se lembra de, em plena era de colonização da autonomia da Madera pela ‘troika’, fazer uma “recomendação”, daquelas de encomenda e absolutamente surreais: pedir ao Governo Regional, qual prioridade inadiável, que faça o levantamento dos cidadãos do arquipélago que foram vítimas do… regime fascista” de Salazar, com o objectivo de promover uma “justa homenagem” aos “antifascistas e democratas madeirenses e porto-santenses que lutaram e mais se destacaram na intervenção contra a ditadura fascista de 1926-1974 e contra a ameaça totalitária Gonçalvista de 1975".

Estou solidário com as gerações dos meus pais e avós que resistiram às atrocidades do salazarismo, mas estou mais preocupado com o desemprego dos jovens, não consigo resignar-me perante a escalada da emigração e à entrega, a países terceiros, das respectivas carreiras contributivas quando do lado de cá da fronteira, enfrentamos um país envelhecido (ao contrário do que acontecia nos fluxos migratórios dos anos 70), um estado que tributa severamente e penaliza a natalidade, que usurpa a Caixa Gera de Aposentações e não dá garantias de subsistência da Segurança Social, que esbanja o erário e sonega o rendimento dos trabalhadores. Preocupa-me a despreocupação do executivo de Alberto João Jardim que deseja tanto inventariar os cidadãos “detidos, interrogados e torturados pelo aparelho repressivo do fascimo português” durante a didatura militar do Estado Novo e está disposto a promover pesquisa exaustiva entre 1926 e 1974, mas ignora os inventários dramáticos do presente, muitos dos quais “torturados” por um regime castrador, batoteiro e imoral, sem solução para travar o sangramento da economia madeirense e para estancar novas hemorragias como as perto de 100 empresas que, na Madeira, mergulharam na insolvência nos primeiros cinco meses deste ano, um aumento homólogo de 113%.

Esta fuga para o passado não é apenas uma airosa manobra de entretenimento para distrair o povo “pata rapada” do saque ao bolso dos contribuintes, nem é apenas mais uma forma de vitimização da Quinta Vigia . É, antes, sintomático da incapacidade deste governo em dar um passo em frente, no sentido das soluções, que não tem. É, sim, suficientemente revelador da alergia ao quotidiano e em assumir as responsabilidades políticas como parte integrante da realidade dramática do momento que hoje vivemos. Ao fugir para trás, está a bater em retirada. Não se demite mas coloca-se onde efectivamente pertence: no passado. Não é um governo do presente mas um refugiado governo do passado. Não quer nada com o futuro porque teme encarar o amanhã, receia dar um passo em falso e cair no abismo. Alberto João Jardim tem medo até do próprio povo que durante décadas o elegeu presidente. Ao primeiro sinal de contestação ou de apupos, perde a serenidade e, a exemplo do que aconteceu, anteontem, na inauguração na Ribeira Brava, deu a entender que vozes de “pata rapada” não chegam “aos doutores”. Quando mais o presdente deste nosso governo sonha com uma Revolta Militar de 1931 contra o fascismo, mais ele contracena sozinho no seu ilusório canal História da Madera Nova e mais a revolta popular o cerca. As “demonstrações de insubmissão” repetem-se na História, não tenho dúvidas, mas surgem sempre contra aqueles governantes déspotas, mentirosos e irresponsáveis que traíram as aspirações do povo madeirense. Governantes que estão bem cá dentro da ilha, a dar música desde 1978.