Diariamente somos bombardeados com estudos ditos científicos que alegam provar qualquer coisa. Ele é o alimento x que faz bem ou mal, a atividade física y que ajuda a morrer cheio de saúde, o método de ensino z que é o mais eficaz, etc. Numa atitude pacóvia, há quem desde logo diga "está cientificamente provado que …", ou seja, é assim e ponto final parágrafo. Então se os ditos estudos vierem da "América" é que não há mais volta a dar: "os Americanos dizem que…", está dito. Ora, em ciência, como dizia Karl Popper, não há certezas, o conhecimento só é científico se puder ser refutado. Caso contrário é um dogma. A ciência não prova definitivamente coisa nenhuma, apenas nos pode aproximar da verdade…Isto pela "simples"(?) razão que estamos, constantemente, a obter novos dados, a fazer medidas mais precisas, a conseguir melhores explicações para os fenómenos… Hoje, com a produção acelerada de conhecimento, é cada vez mais necessário ter uma atitude crítica perante o que nos querem impingir. Por exemplo, é necessário compreender os fenómenos que os estudos abordam, em que paradigma se situam, se "são encomendados", que variáveis, instrumentos, amostras, etc., foram utilizadas… Na mesma linha também somos bombardeados com opiniões avulsas, mais ou menos eloquentes, mais ou menos interessantes … Se é verdade que hoje felizmente podemos opinar livremente (?), também parece ser necessário distinguir entre o que é uma opinião avulsa e sem substrato, daquela que é fruto de uma análise coerente e que é colocada à discussão e refutação. Em pleno campeonato da europa de futebol, não faltam exemplos. É fácil fazer afirmações que não podem ser refutadas: "Se o jogador x tivesse entrado em vez do y tínhamos ganho", "Se marcássemos mais cedo tínhamos virado o jogo", etc. O que é difícil é interpretar o que aconteceu e o que é possível fazer para melhorar. Veja-se como jogadores (e treinadores o que é mais grave) que acabaram de perder um jogo, dizem "estamos de parabéns", "fizemos um jogo extraordinário"… Há que analisar tendências e não apenas casos pontuais. Uma equipa que não marca golos há 4 jogos dificilmente se pode lamentar da falta de sorte… Se tiverem mais vontade de ganhar que medo de perder, talvez tenham mais probabilidades de ganhar. Mas será que treinaram para que isso seja possível, ou será que temos de esperar pela inspiração para sermos felizes? Até podemos ter a sorte de ganhar o euromilhões, mas pelo sim pelo não, talvez seja conveniente ter um emprego entretanto. Se formos capazes de perceber as hipóteses (teorias) que são úteis e quando deixaram de o ser, teremos seguramente, uma melhor relação com o "mundo". E saberemos adaptar-nos a este mundo em mudança. Um mundo de possibilidades ou um mundo de certezas? Cá por mim vou pelas possibilidades …
Hélder Lopes, Professor universitário