Tropecei num livro editado em 2006 pelo britânico Peter Roy sobre a Madeira, e a sua vivência empírica neste paraíso durante cinco anos, cujo título, é o displicente: "Madeira-The Floating Dungheap". Versa as atribulações vividas por ele e a sua consorte japonesa Tomoko, na costa oeste da Madeira, onde fixou residência. Um destino que escolhera gozar na sua reforma, após percorrer várias ilhas desde o Atlântico ao Mediterrâneo. As aventuras de Roy, ocorreram desde 1998 até ao auge do ciclo febril da construção - nos inícios do século XXI - onde o autor escorre o seu olhar duma Madeira de mentalidade "medieval", em ambiente rural onde construíra a sua casa, em que o oportunismo predatório sobre o casal, é referido à exaustão num enorme catálogo de empecilhos e arbitrariedades de algumas pessoas, até à administração pública. À distância desta narrativa autodiegética feita por um estrangeiro, traço o paralelismo connosco. Quando investimos o último voto, no alçapão das mentiras, das promessas goradas e das explicações fantasiosas. Resistimos a meio século de Salazar e a quase outro tanto, na democracia-manca da falta de alternância, à situação actual. Teremos de seguir as pisadas de Roy que se deteve na Austrália, com o rancor expresso no título que escolheu? Falo da mágoa dos que agora partem. Empurrados ao precipício ou à emigração. Que forçadamente seguem a sugestão dos eleitos e compatriotas. O engano é sempre triste. O requinte da traição paternal é arrasador e sem honra. Na visão de Roy, o isolamento "mental" da Madeira é comparável à Ilha de Pitcairn - uma remota ilha da coroa britânica no sul do Pacífico - cujas escassas dezenas de habitantes, são descendentes de marinheiros amotinados do HMS Bounty do século XVIII. Aqui, em 2012, o motim aproxima-se, e já mal se flutua.

Donato Macedo, Lic. Comunicação