Ele corre no parque, sorridente. Acena-me de quando em vez, enquanto me diz o nome dos companheiros de folia. Cai, esfola o joelho, dirige-se a mim a pedir socorro em jeito de mimo e, consolado, volta à brincadeira, com amigos recentes, mas que faz parecer de antigamente.
Se o melhor do Mundo são as crianças, julgo que não haverá melhor som de fundo do que o de um parque infantil. Olho-o com o mesmo olhar de outras mães, de agora e do passado. Sem esconder o orgulho das suas pequenas conquistas diárias. Já anda mais alto no baloiço, o escorrega já não lhe oferece segredos e a destreza com que se move, feliz como só as crianças são, não cabe na descrição mais prosaica.
“Mamã, olha!”. E eu acompanho, aliás raramente o perco de vista, e lembro-me, com preocupação, das notícias desconcertantes sobre a infância no nosso país. Três em cada dez crianças em Portugal são carenciadas, segundo um relatório da UNICEF sobre pobreza infantil que coloca o país quase no final da tabela dos 29 países europeus estudados. E atenção que a investigação foi feita com dados de 2009, antes da crise.
O estudo avaliou a situação financeira, habitacional, a alimentação, o vestuário, a educação, tempos livres. Segundo os investigadores, é considerada ‘carenciada’ uma criança que não tem acesso a duas ou mais das 14 variáveis de base, tais como três refeições por dia, um local tranquilo para fazer trabalhos de casa, livros educativos em casa, ou uma ligação à Internet.
Olho à volta. Há mais de dez crianças a brincar e penso quais serão as três carenciadas. E arrepio-me ao pensar na linha ténue que, nestes dias de instabilidade, separa os que têm uma vida de oportunidade pela frente e os outros, com condições adversas à partida. E não há respostas para isto, num país que apenas olha para os números como instrumentos estatísticos.
Para o país dos números, há outro dado. As portuguesas estão a adiar cada vez mais a maternidade. Nos últimos 10 anos caiu quase para metade as mulheres que tiveram filhos antes dos 30 anos. Uma quebra que agrava a crise demográfica, recuperável só daqui a três décadas. A taxa de natalidade situa-se em 1,3 filhos por mulher em idade fértil. Com a diminuição do número de crianças reduz-se, por certo, os problemas da infância, mas sem sangue novo, de que nos serve lutar por uma país que está a ficar velho e, sem renovação, inevitavelmente morto?