No último artigo falei da estratégia europeia para a ciência e inovação - Horizonte 2020 - que pretende transformar a UE numa economia mais inteligente, sustentável e inclusiva. Numa altura de crise é importante compreendermos que temos que investir na competitividade e que no mundo global atual isso significa investir em investigação e desenvolvimento tecnológico. Só assim a Europa poderá continuar a competir num cenários de cada vez maior domínio das economias emergentes. O próximo quadro comunitário (2014-20) que está a ser desenhado vai depender muito da capacidade das regiões se conseguirem especializar e afirmar de forma competitiva no novo cenário global. Mesmo ao nível das regiões ultraperiféricas isso é claro. A Europa não vai continuar a financiar as regiões só por serem (ultra)periféricas, vai exigir que estas regiões se especializem e demonstrem como são uma mais valia para os estados de que fazem parte integrante e para a própria Europa. Para quem vive numa região como a Madeira isto podem parecer más notícias mas tal como a crise é uma oportunidade que se abre para definir uma estratégia e fazer as escolhas que se impõem. Quando olhamos para a Madeira onde é que estão as nossas potencialidades? O que é que nos distingue das restantes regiões Europeias? Em que áreas temos conhecimento instalado que nos diferencie? E finalmente que áreas têm potencial impacto económico? A solução para a nossa estratégia de desenvolvimento está na resposta a estas simples questões. O exercício meramente especulativo nem sequer é complicado, vamos a isto. Onde é que estão as nossas potencialidades? Na situação geográfica, no clima, na paisagem e na biodiversidade. Somos uma ilha cosmopolita, com uma história de mais de 5 séculos e uma tradição de turismo secular. Temos o vinho Madeira, a tradição histórica e cultural das descobertas e uma população genericamente simpática, afável e aberta. Temos um conjunto considerável de infraestruturas e uma concentração populacional que permite uma gestão eficaz de recursos. O que é que nos distingue das restantes regiões Europeias? Se nos concentrarmos nas regiões atlânticas não temos os problemas da dispersão dos Açores, de atraso e pobreza de Cabo Verde e de aridez das Canárias. Temos uma beleza natural comparável aos Açores com melhor clima e maior concentração e capital de exploração turística. Não temos a dimensão e massa crítica das Canárias mas também não estragamos tanto a paisagem urbana e natural. Em que áreas temos conhecimento instalado que nos diferencie? Aqui surgem os problemas com os atrasos estruturais e o aparecimento tardio e instrumental da Universidade. As Canárias fruto dos problemas de falta de água tiveram um instituto tecnológico e duas Universidades com massa crítica importante. Os Açores uma Universidade com uma maior implantação cultural e regional embora com problemas complicados de dispersão. Canárias tem centros de excelência em Astronomia e Oceanografia, os Açores em Vulcanologia e Biologia Marinha. A Madeira só agora consegue começar a afirmar centros de excelência nas áreas das ciências exatas, engenharia e economia. Tem enorme potencial disperso nas áreas da biologia, incluindo a biodiversidade, a maricultura, a conservação da natureza e mesmo na saúde e na cultura. Mas todos estes esforços, muitas vezes fruto do empenho e entusiasmo individual, são ainda incipientes e frágeis. Finalmente que áreas têm potencial impacto económico? Aqui surge a espada de Dâmocles... Nenhuma área incipiente muito menos em C&T pode ter impacto económico. Não existe inovação sem conhecimento, simplesmente porque não podem existir boas ideia a chegarem ao mercado sem que existam em primeiro lugar pessoas capazes de gerar boas ideias. É por isso que qualquer política necessita de visão, tempo e estabilidade para gerar resultados, tudo a que o exercício político frenético é totalmente avesso. Esta pergunta mais do que gerar respostas gera outras perguntas. O que caracteriza o conhecimento e a inovação em áreas como o turismo, a cultura, a paisagem e a biodiversidade? Como reter e gerar conhecimento com capacidade reprodutiva em áreas como as infraestruturas? Como desenvolver a chamada "economia azul" dos oceanos onde a Europa pretende investir milhões e na qual a Madeira e as regiões Atlânticas estão claramente bem posicionadas? Quais das áreas incipientes se vão afirmar e quais os instrumentos necessários para promover este desenvolvimento? São muitas as questões... Este é apenas um breve diagnóstico. Só se soubermos responder devidamente a estas questões, e se conseguirmos fazer as escolhas e tomar as decisões corretas, podemos inverter o ciclo vicioso em que estamos instalados. A solução para o nosso problema não é explicar a Portugal e à Europa que têm que pagar para ter uma pérola no Atlântico, é demonstrar de forma clara e objectiva que Portugal e a Europa têm muito a ganhar em ter uma região atlântica moderna, competitiva e sustentável. A autonomia é isso mesmo, sermos capazes de crescer e ser responsáveis pelo nosso futuro e não continuar numa dependência infantil da ajuda dos outros - passar à idade adulta não é fácil mas é necessário. A especialização inteligente é apenas a nova "buzzword" para o velho desafio da maturidade - deixar de viver da mesada dos pais, escolher uma profissão e ganhar a vida de forma independente.
Nuno Nunes, Professor Universitário - Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal