Os resultados das eleições em França e na Grécia são uma lição para qualquer democracia e para qualquer político. No primeiro caso a vitória de Hollande não se deve essencialmente às suas qualidades - e muito menos carisma - mas sim ao descontentamento em relação a Sarkozy. Vale a pena ir mais atrás para perceber a derrota de Sarkozy. Eleito, há cinco anos, com um Programa Radical e Reformador - de facto com ideias muito originais e bastante corajosas - mal chegou ao Eliseu adotou uma postura nada adequada ao seu eleitorado de Direita. Logo na formação do governo quis ser original. E foi. Convidou um socialista para ministro dos negócios estrangeiros. Uma magrebina para ministra e uma negra para secretária de estado. Um governo, de propósito, multiideologico e multiracial. Diria "um governo colorido" e «avant garde». Depois trocou de mulher e adotou uma velocidade desenfreada e estonteante na sua presidência. Todas posturas e atitudes que não agradaram - naturalmente - ao seu eleitorado original que o tinha eleito para o Eliseu. Primeira lição: quando se é eleito por uma franja ideológica não se a deve desprezar logo à primeira para se atrair a fraja opositora. Sarkozy tentou governar «ao centro». A conclusão (e aqui está uma grande lição) é que quando se quer encantar todo o eleitorado - e governa-se ao Centro - o risco é enorme. Corre-se o risco de perder o apoio original da Direita e de não conquistar o eleitorado de Esquerda. Foi exatamente isso que aconteceu a Sarkozy. Não foi coerente. Ganhou pela Direita, quis atrair a esquerda e governou ao centro. Perdeu, claro está. Assim, os políticos devem ser coerentes. Devem ser fieis aos seus eleitores e governarem em coerência, com verdade e acima de tudo governarem bem. Se o fizerem mantêm o seu eleitorado e podem de certeza - devido à coerência, verdade e boa governação - ganhar parte do eleitorado contrário. O eleitorado é que deve escolher o político e não o contrário. É assim com os grandes líderes. Os políticos medíocres são aqueles que governam pelas sondagens - logo vão atrás constantemente das opiniões do momento dos eleitores e querem ganhar tudo e todos. Sem coerência ideológica. São naturalmente penalizados. E ainda bem. No caso de Sarkozy até é pena que tenha acabado assim porque tinha, há cinco anos, um Programa muito interessante e foi durante muitos anos um político corajoso coerente e mesmo «politicamente incorreto». Procedeu foi mal na presidência. É ainda curioso reparar, que nestas eleições em França, boa parte do eleitorado de Direita votou na populista Le Pen. Não surpreende. Trata-se de um eleitorado que se sente enganado e que não deu segunda oportunidade a Sarkozy. Já na Grécia a história é outra. E bem pior. Os políticos gregos - uma mistura de incompetentes, ladrões e oportunistas - detestados pelo povo grego, atreveram-se a manter a sua cartilha e a fazer uma campanha eleitoral como se a Grécia não estivesse falida. Imagine-se que o partido da Direita até prometeu a descida de impostos e o aumento dos salários e das pensões. Naturalmente que a Direita sabe que não vai cumprir nada disso porque a Grécia está completamente falida. Apesar de ter prometido o Paraíso no Inferno grego, a Direita ganhou as eleições com uma tímida vitória e muito longe da maioria. A lição a tirar é que o Povo não é estúpido e sabe avaliar a realidade e sabe identificar quem promete mentiras - e é mentiroso - e quem diz a verdade. Mesmo prometendo "o fim da crise", "aumentos dos salários e das pensões" (que melhor num país que caiu nos últimos anos na miséria) o povo não se entusiasmou nem acreditou. Outro fenómeno - curiosamente também vivido em França - é verificar que os partidos tidos como «clássicos e democráticos» estão a perder apoios para pequenos partidos de franja, quase sempre extremistas. Em França esses partidos já representam 40% e na Grécia ultrapassam os 50%. Isto para não falar do altíssimo nível de abstenção. Este fenómeno é o caminho mais rápido a soluções totalitárias ou pelo menos antidemocráticas. Quando o eleitorado despreza os partidos tidos como democráticos - porque legitimamente não acredita neles - e opta por partidos extremistas a democracia está a prazo. Estas são, assim, boas lições para quem julga que a política «são favas contadas» e «aquilo que é hoje será igual amanhã». Não é verdade. As coisas estão a mudar e a grande velocidade. Ainda por cima - e ainda bem - o eleitorado está cada vez mais atento, exigente e intolerante com os mentirosos e com os incompetentes.
Paulo Neves