Manuel João Baptista Rosa Trinta e seis anos depois sinto as recordações cada vez mais presentes e a necessidade de relatar a experiência, para memória futura. 1.Cheguei a Luanda em Setembro/74, integrado no BCAC/4611, formado em Évora, o único, segundo escreve Pezarat Correia no seu livro sobre este tema, ido após 25/Abril, que cumpriu com dignidade a sua missão e no Grafanil (quartel) tomei contacto, pela primeira vez, com melgas e respectivos mosquiteiros. 2. De fragata, viajei até à cidade de Cabinda onde cheguei, de madrugada, ao respectivo porto, tendo logo tomado contacto com o cheiro intenso a petróleo, negócio explorado por empresa dos EUA (e nós é que éramos os colonizadores). 3. No comando setor e no quartel que albergou a minha companhia apercebi-me da existência de cerca de duas dezenas de urnas, ainda por evacuar para o “puto” (Portugal), o que comprova que Cabinda foi, nos últimos anos de guerra de Angola, o teatro mais feroz, pois o MPLA queria legitimar a posse deste território, pela força das armas, já que juridicamente não lhe assistia, nem assiste, qualquer direito. 4. Logo no meu primeiro MVL (movimento de víveres e lubrificantes) ao interior de Cabinda apercebi-me da falta de condições das instalações militares, onde os nossos soldados permaneciam cerca de dois anos. 5. Neste meu primeiro MVL já os soldados do MPLA confraternizavam com os nossos – até parecia que nunca tinham estado em lados opostos. 6.A FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda) cavalgava uma onda de entusiasmo na população, reivindicando a independência de Cabinda, contra a sua anexação por Angola, em respeito pelos acordos de Chinfuma e Simulambuco, celebrados entre Portugal e Cabinda em 1875, os quais definiam Cabinda como um protectorado de Portugal. Só que os acordos de Alvor negaram esse direito ao povo de Cabinda – um erro histórico que já causou e continua a causar muito sofrimento ao povo de Cabinda. 7. Tive ainda oportunidade de assistir ao interrogatório feito a um prisioneiro (soldado da FLEC) e realizado por um elemento da DGS, o que prova que esta força ainda colaborava com o exército. 8. Assisti incrédulo à invasão da cidade de Cabinda por uma força conjunta, MPLA/Exército Português, a qual prendeu o comandante do sector de Cabinda, general Temudo Barata, e causou catorze baixas entre os militares da FLEC, ilegalizando esta força política. Tudo isto com o apoio de Rosa Coutinho, comandante geral de Angola e do MFA. O general Temudo Barata era acusado de facilitar as atividades da FLEC. 9.A FNLA e a UNITA surgiram em força quer em efectivos quer em equipamentos. Muitos soldados da FNLA só falavam francês (Zaire). Todos os movimentos de libertação estavam a receber fortes apoios do exterior: MPLA de Cuba e Rússia, UNITA da África do Sul e FNLA do Zaire. 10. Recebemos ordem do comando geral em Luanda para abastecer os movimentos, com víveres e lubrificantes, mas estranhamente só o MPLA apareceu a solicitar apoio (tempo de Rosa Coutinho). 11.Criaram-se as FI (Forças Integradas), junção dos quatro exércitos no terreno, treinadas por militares portugueses e sob comando português. Ainda se acreditava na integração dos três movimentos. 12.O MPLA e a Unita envolveram-se numa luta feroz pela posse da cidade, durante três dias e noites, tendo a população branca sido recolhida no nosso quartel. No segundo dia, surge o boato de que Mobutu iria invadir Cabinda, o que não era descabido pois sabia-se dessa intenção e, por isso mesmo, estava fundeada no porto a melhor fragata da armada portuguesa e pelo menos duas companhias de comandos permaneceram neste território até à independência. O MPLA ganhou mas a população branca fugiu, deixando a cidade paralisada. 13.Numa das viagens a Luanda, por via aérea, no “barriga de ginguba”, apercebi-me da forte presença militar do MPLA, dentro da cidade. Fui informado que haviam chegado a Luanda milhares de cubanos situação à qual não atribui, na altura, qualquer significado. 14.Recebi a notícia do assassinato de um familiar, que trabalhava no Bom Jesus (perto de Luanda), por militares do MPLA. Era simpatizante da Unita. Muitos civis foram mortos desta maneira às mãos dos movimentos. 15.Chegou a Cabinda, proveniente do “puto”, um Batalhão que se revoltou, exigindo o regresso imediato. Estava infiltrado por elementos SUV, movimento que defendia ”nem mais um soldado para as colónias”. Foram necessárias forças especiais e aviação (Fiats) para forçar a rendição daquela unidade militar. Este episódio mostra a dificuldade que havia na rotação das tropas, a qual era fundamental para uma descolonização adequada aos interesses dos milhares de portugueses nas colónias. Se juntarmos a esta dificuldade a situação internacional, na qual os EUA tinham acabado de sair do Vietname, facilmente concluímos que Portugal, nestas condições, nada podia fazer a não ser retirar de imediato. 16.A FLEC tomou de assalto um nosso quartel, no Massabi, tendo sido necessária a intervenção dos comandos, para recuperar a unidade e os militares que haviam sido feitos prisioneiros. 17.As instituições públicas passaram a ser dirigidas por militares. Fui nomeado para fazer parte da comissão administrativa que tomou o comando da Câmara Municipal de Cabinda, até Outubro/75. 18.Rui Mingas (antigo atleta do Benfica e combatente do MPLA) cantou para o pessoal e fez vibrar os militares. Um alto comando do MPLA revelou, na messe de oficiais, que, aquando do 25/Abril, o movimento dispunha apenas de cerca de 2000 homens, em todo o território angolano, revelação que nos deixou a todos surpreendidos. 19.Em Luanda, assisti ao massacre na Vila Alice no qual os nossos comandos abateram cerca de oito dezenas de militantes do MPLA, como retaliação pela morte de um alferes e recusa de Agostinho Neto em entregar os responsáveis (tempo de Silva Cardoso que substituiu Rosa Coutinho). Na messe de oficiais, naquela cidade, ouvi um alferes comando afirmar com satisfação que iria guardar, como recordação, a faca com a qual havia morto quatro “camaradas”. 20.Apesar de não ter havido combates envolvendo as forças do meu batalhão, ainda assim, no meu quartel, houve três mortes devido a fogo “amigo”. Tivemos ainda onze casos de sífilis (só na minha companhia) e alguns viciados em liamba que não tiveram qualquer apoio médico na vida civil. 21.Quando chegámos a Lisboa (Belém) para desmobilizar, fomos postos fora do Exército de uma forma tão fria que jamais esquecerei. Ainda antes, na chegada ao aeroporto, os “páras” de serviço tentaram roubar-me uma aparelhagem de som, adquirida em Cabinda, que só me foi devolvida depois de muito pedir. É o que a pátria melhor sabe fazer àqueles que a servem. Eis em traços gerais a minha experiência no processo de descolonização.