Quase todas as culturas, nos seus diversos governos, desde os tempos antigos, contavam sempre com a figura do palhaço que tem diversos nomes, pode ser o bobo, o bufo, o espírito santo de orelhas, o tolo, o idiota, o ignorante, entre outros nomes. Ao lado do rei, do imperador, do faraó, do sultão, do presidente e de qualquer chefia, esse bobo faz figura de ignorante e de pateta. Mas não é bem assim. Os rituais cansativos e enfadonhos do poder precisam de uma ou mais figuras à sua volta que representem outras vertentes da existência, a brincadeira, a fragilidade e a provisoriedade do poder. Um bom governo conta sempre com um bom chefe e pelo menos com um bobo. Nisto se descobre a seriedade e o limite, a altivez do poder e o sentido de humor. Eis a arte de governar. Nos tempos do império romano, quando o imperador passava o arco do triunfo recebendo as honras pelos feitos da governação, o ritual da cerimónia exigia que alguém lhe dissesse ao ouvido o seguinte: «memento mori» (lembre-se, é mortal). As cortes medievais também tinham os seus bobos que dançavam e riam, mas que pelo meio lembravam coisas sérias, até as asneiras dos reis. Dom Quixote que sonha com os mais nobres ideais, caminhava acompanhado com o seu Sancho Pança que se detém sempre mais em banalidades. Ora os idiotas fazem os governos e têm um papel essencial na condução da governação. A boa governação faz-se com idiotas. Eles apontam para os limites. Um bom rei escuta o idiota ou os bobos que tem à sua volta. Dostoievski quando queria falar de um homem bom chamava-lhe de idiota. Porque asneirar é caminho de sabedoria e o humor amacia a autoridade. O chefe que não tenha estes valores está tramado. E o que dispensa o idiota (o bobo) ou nele se encarna caminha para o fim de forma inglória. Por isso, quando temos chefes que não enxergam um palmo à frente do nariz daquilo que se vai passando, podem enrodilhar-se em armadilhas terríveis. O medo domina-os. Estão convencidos que fora de si é o caos. A desconfiança perante a diferença encegueira-os… E assim se deixam tomar por sombras assustadoras, armadilhas, fantasmas dentro do palácio e gritos que ecoam nos imensos corredores. Os psicólogos dizem que isto podem ser expressões de desejos não confessáveis e sentimentos reprimidos. Neste ambiente falta o idiota da corte que lembra que as coisas podem ser diferentes, a realidade é outra e as coisas nem sempre são como nós desejamos. Mas, falta-nos verdadeiros bobos da corte, porque os de hoje passaram a simplórios patetas e que nada têm de idiotas à maneira de Dostoievski e das confidentes das rainhas e reis nas comédias de Shakespeare. Ou então, simplesmente desistiram porque o rei não tem sentido de humor. Nisto, vislumbramos a famosa máxima de que «o rei vai nu». E a meu ver o rei mergulhou em profunda solidão. Triste sina a nossa, nem um bobo os reis de hoje conseguem segurar. Por fim, sonho com «poderes» que reconhecem em cada homem e em cada mulher, que no mundo concreto são o sacramento do amor de Deus. Por isso, nem dentro nem fora deste «poder», há lugar para o desprezo, para a marginalização e para o repúdio de ninguém. Todos e cada um é sacramento do amor infinito de Deus Mãe/Pai. A ousadia da criatividade é um bem. A desconfiança não dita regras contra o novo. Tudo com todos e para todos, é este o «poder» de Jesus de Nazaré.
José Luís Rodrigues