Toda a cultura é uma ilusão. A ilusão de que um dia, daqui a alguns milhões de anos, vão sobrar algumas folhas de papel, um vinil ou um quadro que alguém no Espaço testemunhe e veja que grande civilização fomos um dia (e sou um romântico quando falo em vinil e papel em vez de disco rígido). É uma ilusão porque o mais provável é termos o mesmo destino de todas as coisas insignificantes e acabarmos feitos em poeira cósmica - tal como a tabuleta da tabacaria da rua de Fernando Pessoa e, para consolo dos invejosos, o próprio Pessoa também. A crise, por sua vez, é um ambiente de desilusão permanente. "Não há ilusões", dizem os outros, em crise comigo. "Não tenhas ilusões", digo eu, em crise com eles. E apesar de estarmos em crise uns com os outros, não deixamos de ser bons bichinhos humanos e racionalizar, tratando a "Crise" como um conceito quando ela é também, e sobretudo, um comportamento. Sexta-feira não me comportei como se estivesse em crise. Fui ao liceu falar da "Leitura como fonte de conhecimento" e passei a tarde na conferência do Turismo, subordinada ao tema da Cultura e organizada pela Ordem dos Economistas. Foi uma tarde porreiríssima e bem organizada, e sinto-me obrigado a saudar a Ordem. Campos e Cunha falou do efeito multiplicador da cultura na Economia, no benefício face aos custos. Em fazer Cultura com as pessoas e não para as pessoas. Em diferenciação, fazer bem. Que a Cultura precisa de tempo. Mas isso lembrou-me do espírito da crise. O espírito da crise não dá tempo. O espírito da crise é hedonista e isso é um paradoxo. É uma pulsão de morte. É todo javardo. Quer investir, mas só com retorno. Quer existir, mas só com garantias. É o espírito da crise que leva o Banco a se retrair quando lhe levamos uma ideia nova. É o espírito da crise que leva quem tem dinheiro a preferir exigir o castigo da austeridade ao contra-ciclo da prosperidade. É o espírito da crise que despreza a qualidade como parte da utilidade. É o espírito da crise (e este é perpétuo) que leva a querer reservar a cultura à elite, e prefere apostar na sua intensidade a apostar na sua extensão. É o espírito da crise que, enquanto falamos em diferenciação cultural, impõe um Acordo Ortográfico onde passamos de criadores da nossa Língua para criados de outras versões do Português. Os ingleses quando vão ao estrangeiro dizem que vão "abroad". O som é coloquial. Ouve-se igual a "a broad", que significa "uma gaja". Os portugueses, imbuídos do espírito da crise, vão "lá foraa", sempre com prolongado embevecimento pelas virtudes de "uma gaja" com a simples qualidade de nunca ter sido comida por portugueses. É o espírito da crise que perpetua o comportamento da crise, e é o comportamento da crise que perpetua a "Crise". As tabuletas servem para indicar, e o Fernando Pessoa não serve para nada. Tudo tem de ter uma função imediata e evidente. Não há ilusões. É por isso que o primeiro problema da cultura é de discurso social. A cultura precisa de "c" pequeno e desprendimento, e compreender que a sua primeira função não é citar nomes franceses em catadupa, mas estabelecer uma plataforma de compreensão da actualidade que sirva como referência para criar. Uma Cultura entendida simplesmente como "asset" financeiro, que não seja instrumentalizável pelos jovens, é chutada para um limbo de máquinas digitais de estrangeiros e para o wikipedia de conveniência. A principal mudança a fazer é perceber que o crescimento económico (aqueles 3, 4 e 5%) é feito de ilusões que se criam. Sem ilusões, não há criações. E, sem criações, a crise continua, tratando igual e indistintamente pessoas e tabuletas, miúdos e velhos, ilhéus e continentais, portugueses e europeus, ilusões e desilusões, criadores e derrotados. E aqueles miúdos do Liceu continuam a dar menos do que prometem. Excepto "lá foraa".

Pedro Fontes