Num casual exercício de pesquisa cruzei-me com uma publicação de João de Sousa da Câmara, em 1969 - "A missão pedagógica da banca". Achei de grande actualidade a citação de Navarro Rubio, ex-ministro das finanças de Espanha, em 1963, que defendia que "os banqueiros têm especial dever de serem exemplares. A sociedade pede e deve exigir-lhes uma conduta que corresponda à alta missão que lhes é confiada". Numa altura em que nos deparamos com agravamentos dos juros com elevada regularidade, e com especial desproporcionalidade face às condições iniciais nas operações que apresentam sinais de incumprimento, quando aberta a necessidade de renegociação, ainda que tal possa implicar a asfixia, acrescem aumentos nas comissões outrora mais baixas ou mesmo isentas. Aos que atribuem a responsabilidade da situação económica actual ao sobreendividamento de famílias, estado e empresas, a banca responde com um by-pass para quem contraiu divida, como que ignorando o problema que ajudou a gerar, num fenómeno semelhante aos riscos de morte por overdose de que sofrerão os toxicodependentes quando têm acesso fácil ao produto de que dependem. Encaminho-me para uma mea-culpa, sendo que considero que caberia aos bancos a responsabilidade didáctica perante os que menos lucidez revelavam, a cada momento. Não podemos esquecer que os rendimentos de muitos particulares foram abruptamente cortados e que muitas empresas viram as suas margens serem ceifadas pela necessidade de absorverem os aumentos do IVA, quiçá numa suicida decisão desesperada de tentar segurar o volume de clientes. Não tendo a missão de julgar, apelo ao bom senso e à supervisão e regulamentação na defesa de todos, mas nunca para colmatar os problemas daqueles que pelas suas opções mergulharam numa feroz necessidade de se 'recapitalizar', leia-se a banca. A responsabilidade social pode ser exercida de muitas formas.
Rui Gomes Coelho, Economista