Talvez a melhor cantora lírica de todos os tempos, MARIA CALLAS, de origem grega, notabilizou-se pela sua voz carregada de emoção e de enorme amplitude na qualidade de soprano. O seu percurso foi tudo menos pacífico e por onde passava era frequente deixar inimizades, incompatibilidades em especial com os seus colegas de canto. Nos vários palcos de teatros de opera por onde passou era usual criticar-se o seu génio, as suas exigências e um certo feitio de prima dona. Dizem que foi por ter sido assim que acabou os seus dias sozinha, em Paris, vinda a falecer com pouco mais de 50 anos, de enfarte miocárdio. CALLAS foi notável e a sua fama percorreu o Mundo. Também esteve em Portugal e há quem ainda se lembre de ouvi-la (há até gravações da sua exibição no São Carlos). CALLAS, porém, aos poucos, foi perdendo a força, a vitalidade e a frescura da sua voz que antes encantava quem a ouvia. Inexoravelmente o seu desempenho ia perdendo qualidade e nos palcos ia-se notando que o seu esforço era cada vez maior para poder acompanhar os registos de outrora que encheram plateias e galerias. Conta-se que uma vez, em 1958, na hora em que cantava em Roma interpretando papel de Norma na ópera do mesmo nome de Bellini (performance que a caracterizou), "foi desafiada " por Mara Zampieri que representava a outra personagem feminina da ópera, de nome Clotilde, vendo-se forçada a abandonar o palco. Na dialéctica própria das representações de ópera, CALLAS sentiu-se ultrapassada pela voz cristalina e jovial de Mara e a meio da própria actuação saiu de cena deixando perplexa a assistência e um grave problema ao produtor do espectáculo. Referiu estar indisposta e ter-se sentido mal. Nunca conseguiu ultrapassar a convicção generalizada de que o seu abandono se ficou a dever ao facto de não ter tido capacidade para acompanhar a nova voz que se começava a afirmar. Esta história de CALLAS é por vezes lembrada aos artistas e aos homens do espectáculo com uma importante regra: há uma hora para sair de cena! Mesmo que faça bem ao ego o aplauso, é sempre melhor sair pelos seus pés antes de sentir ser-se empurrado. Quem sabe sair a tempo mantém na memória a áurea da glória, sem estar obnubilado pelo arrastar dos pés pela ribalta. Na política o palco confunde-se com o serviço à causa. Muitas vezes a hora de render a guarda é perturbada com o sentimento de desertar. Os políticos não querem sentir que desiludem os que o apoiam com a ideia de que se retiram nos momentos cruciais. A verdade porém é que a história revela que esse receio não é de facto importante porque felizmente as sociedades continuam e a vida política tem sempre capacidade para se renovar. Pensar o contrário é no fundo julgar que há insubstituíveis e ainda por cima conjugáveis na primeira pessoa do singular.
Ricardo Vieira