Dá-se a coincidência de estarmos em ano de conferência magna, à escala planetária, sobre o desenvolvimento, quando, feitas as contas e lidas as notícias quotidianas, a coisa está tudo menos sustentável do que nunca. A falência dos modelo de desenvolvimento dos Estados, por via do esgotamento dos recursos, do aumento da procura e do falhanço rotundo dos sistemas de redistribuição da produtividade é o chão que sustenta uma discussão excêntrica em torno da utopia útil que é o desenvolvimento sustentável. A equação, à escala global, é de fácil percepção e até suficientemente clara e mobilizadora das participações dos principais interessados, as pessoas. No entanto, já quando se trata de cumprir, em cada bocado do planeta a que se chama país ou bloco económico, logo se revelam as velhas premissas e visões que conduzem a práticas do tipo "business as usual". Ou seja, insistimos na velha lógica de que a sustentabilidade fica bem num discurso global mas, intransponível para a responsabilidade quotidiana, que todos deveríamos praticar no nosso quintal. É por isso que não se concretizaram as Agendas 21 locais , nem quando em alguns municípios foram geridos por gurus da sustentabilidade. É por isso que não se integram ainda nas continhas públicas os cálculos dos bens e serviços ecossistémicos nem se internalizam os custos e benefícios ambientais nos esquemas produtivos dos agentes económicos, sejam privados sejam públicos. É por isso que tardam as reformas concretas que promovam a justiça fiscal perante disposições contrárias ao bem comum, integrando neste a dimensão ambiental. É por isto que no direito, a matéria ambiental ainda é um caminho longo a percorrer entre a formulação conceptual e a concretização material. Seja como for, 20 anos depois, no Rio, os chefes todos, os oficiais e os das tribos que gravitam alegoricamente em torno do cortejo da sustentabilidade, voltarão a afinar o diapasão pelo diagnóstico com que todos concordam. Já menos afinada será a decisão sobre as medidas adiadas ou as novas que, equacionadas, não produzem efeito porque nos dias que se seguem, voltam todos a casa e ao conforto das rotinas dos ciclos curtos onde sustentabilidade não faz sentido a não ser a da cadeira onde se sentam. Fica, novamente, a expectativa, a notícia, o discurso e as propostas vagas com que os cidadãos depois se interrogam: "como posso eu tratar disto? como posso participar, resolver, agir?". O novo paradigma, parece ser a "Economia Verde", uma proposta arrojada, conceptualmente integrada e integradora que, por isso mesmo, assusta. Assusta, sobretudo, os que, promovendo-a no discurso, insistem numa prática, absurda e absolutamente contrária. Se houve área em que globalmente falhámos, foi precisamente esta construção de uma economia do tipo "Frankenstein", que, monstruosa, perigosa e provocadora de estragos sociais gigantescos, é mantida, por uns, pelo carinho devido aos filhos criados e, por outros, porque controlando-a, adora brincar aos monstros, não entendendo que de tanto assustar, acabarão um dia por se ver sós, ao espelho, eventualmente, também assustados.

António Domingos Abreu