Não vou falar da JSD/Madeira. Não merece uma linha. O último comunicado imbecil, a linguagem usada e o estilo de ataque à juventude socialista é a prova de uma má escola. Os herdeiros da arruaça e do insulto. Os filhos legítimos de um hooliganismo político desprezível. Não vou falar do parlamento regional. Já não representa nada. Os partidos da oposição sempre foram figurantes de um filme, uma longa, longa metragem que começou a preto e branco. Deixaram-se enrolar na fita de trinta anos. Some-se as cenas de paródia cada vez mais recorrentes, tristes e caras. De má qualidade. Repetitivas. O desespero de uma maioria presa por três deputados chega ao ponto de não respeitar os mortos nem os vivos, nem as regras básicas do pluralismo democrático. Um lugar onde os governantes omitem a verdade ou se recusam a prestar contas. O desrespeito total pela população é igual ao desrespeito total pela autonomia. A regra da maioria não deveria ser uma presunção puramente negativa de que ninguém conta mais do que os outros mas o reconhecimento da dignidade cívica de todos os homens. Não uma liberdade com separação de uns dos outros, mas uma liberdade com integração numa sociedade de todos. Em suma, como escrevia Jorge Miranda, na sebenta de Ciência Política e Direito Constitucional dos anos 80, "a regra da maioria é um corolário ou uma exigência de uma igualdade livre ou de uma liberdade igual para todos (...) a maioria não é um critério de verdade" e nem sequer todas as matérias políticas (acção) a ela estão sujeitas. Não vou falar do governo regional que se reúne em surdina e esconde as más notícias julgando que passam despercebidas no jornal oficial publicadas semanas depois. Perdeu a palavra de honra, a credibilidade e o papel de âncora. Não havia pobreza? Não havia taxas moderadoras? Não havia aumento de impostos? Não havia desemprego? A Madeira primeiro! Sim, a Madeira primeiro! Para quem? Os madeirenses foram enterrados num pântano. Não vou falar de discursos alucinados, irreais, trapaceiros. Simplesmente porque não vale a pena repetir o que já foi dito. Incluindo métodos ou estratégias de sempre. Tudo é patético. Com omissões à verdade. E sem resultados. Os madeirenses foram...aliás, estão abandonados. E não há quem lhes diga isto na cara. Alimenta-se a ilusão para logo quebrá-la com joguinhos das palavras gastas daquelas que não chegam para afugentar "o frio de quatro paredes" (Eugénio de Andrade, Adeus) Não vou falar do sentimento de revolta interna, do desalento, de incapacidade de reagir, da caridadezinha saída de uma miragem dourada que se esfumou. Vários fatores podem levar uma pessoa ao estado de choque emocional. Há muita gente pálida com a pela fria e húmida pela rua. Com suores frios e densos, pulso rápido e fraco, respiração curta, náuseas e vómitos, visão nublada e inconsciência. Não vou falar de nada. Digamos que estou, finalmente, de luto carregado. A Madeira acabou. E há responsáveis que se escondem nas desculpas. "Quem é que partiu os lápis de cor ?", pergunto. "Não fui eu, foram eles", respondem. Eles, quem? E ouço a lista dos culpados. Sempre os outros. Nem sequer haverá alguém que ajudou a empurrar as pontas de carbono pintadas de laranja para debaixo do tapete? Não vou falar de nada porque não há paraíso nenhum. Foi uma invenção. Acreditem. Tal como acreditei que seria possível viver nesta ilha de uma forma diferente. Dividindo o ar unicamente com a pressão atmosférica. Mas é impossível. Apetece partir e "perder o teu olhar", como cantou Max. Lilia Bernardes, Jornalista DN nacional, na Madeira [email protected]
Lilia Bernardes