
Mais do que uma aversão à realidade inconveniente, este governo lida com a verdade como um mitomaníaco. Não mente por acaso ou por capricho. Cria mitos e fantasias e mergulha neles com toda a convicção do mundo. “A ‘troika’ que eu saiba, não manda na Madeira”, afirmou, o secretário dos Assuntos Sociais numa infeliz tentativa de imitação do estilo jardinista, em Novembro último, já a administração regional das contas públicas transitava para Lisboa. O governo mente desmesuradamente assumindo como absolutamente correcta e inquestionável a sua visão primária, autofabricada, mas distorcida, enviesada e delirante da realidade. Por isso, vai acenando com a independência destas ilhas na bancarrota e ameaçando sair da União Europeia de onde, pasme-se, veio dinheirinho vivo durante décadas e virá a salvação das contas da Madeira. Lá fora, fazem troça de nós. Cá dentro, o senil executante de manobras já não governa mas continua a propagar junto do seu povo o produto da sua imaginação, acreditando que consegue manietar a constatação que os outros têm sobre si próprio como se embarcássemos todos naquela cegueira cada vez menos colectiva. Como que se uma paisagem primaveril pintada num espelho alterasse o reflexo da realidade, deste longo e rigoroso Inverno. Felizmente há cura para a mitomania...
Dizer a verdade tornou-se num sofrimento atroz para este governo, sobretudo, quando está em causa assumir a responsabilidade dos erros governativos ou a iniciativa de decisões correctivas inadiáveis mesmo com impactos negativos para a vida dos cidadãos, susceptíveis de ferir o culto da imagem de quem governa. “Foi uma exigência da República para haver dinheiro para a Região e, a contragosto, o governo regional aplicou este regime ao serviço de urgência do hospital”, reagiu ontem o mesmo secretário regional, confrontado com a decisão tomada em conselho de governo e omitida desde a passada quinta-feira. Os pruridos não são de hoje, embora surjam agora no contexto das famigeradas taxas moderadoras, negadas até à exaustão apesar de previstas no programa de ajustamento económico e financeiro como contrapartida para o resgate financeiro. Para enviar a culpa para longe, o governo consegue sempre encontrar um remetende. É hábil a vestir a capa da inocência, qual Capuchinho Vermelho, mas basta alguém acenar com umas notas do Banco Central Europeu para que a máscara caia e se descubram as mandíbulas. O lobo mau não é a ‘troika’, nem a República, mas o devorador de envelopes financeiros que perde o discernimento quando já não sobra carne entre os ossos.
P.S.: Jardim Ramos reafirmou ontem aquilo que tinha já dito em Março no Parlamento: que o governo regional só aplicaria taxas moderadoras na saúde pública da Madeira “se for obrigado pela República”. Não concorda? Então porque assinou?