Apesar dos sintomas recessivos que se fazem sentir em várias economias europeias, a Alemanha tem lidado com o desemprego de forma tenaz. A taxa de desemprego na Alemanha em março de 2012 situou-se nos 5,6% (segundo o Eurostat), sendo a terceira taxa mais baixa de um lote de 27 países europeus (EU27). Melhor do que a Alemanha, em matéria de desemprego, apenas a Áustria (4,0%), a Holanda (5,0%) e o Luxemburgo (5,2%). Muito pior do que a Alemanha, nesta matéria, assinale-se as taxas em Espanha (24,1%), Grécia (21,7%) e Portugal (15,3%). Refira-se que a média da taxa de desemprego em março (na zona EU27) fixou-se nos 10,2%, situação que também permite outra leitura: enquanto a Alemanha obtinha cerca de metade (5,6%) da taxa de desemprego média da zona EU27 (10,2%), em Espanha e na Grécia o registo já era superior ao dobro da taxa média dessa zona, com Portugal instalado numa trajetória que lhe conferia a presença entre as 3 piores taxas de desemprego. Assim, com o número de desempregados e a taxa de desemprego nos píncaros, passou relativamente despercebido e sem destaque entre nós, alguns dados apurados pelo Institut Arbeit und Qualifikation/Universität Duisburg-Essen (Instituto para o Trabalho e Qualificação da Universidade de Duisburg-Essen), que constituem um convite à reflexão sobre as razões que têm de ser consideradas na abordagem à criação de emprego na economia alemã nos últimos anos. Donde irradia, então, tal "milagre"? Sem pretender reduzir a complexidade ou a explicação do fenómeno a um artigo de opinião, penso que não podemos deixar de considerar como o "milagre da criação de emprego alemão" tem-se feito acompanhar pela diminuição dos rendimentos médios do trabalho entre uma parte muito significativa dos trabalhadores alemães. Os dados divulgados referem que ao longo de um período de 15 anos, os trabalhadores com baixos rendimentos do trabalho aumentaram e contabilizavam-se (em 2010) na ordem dos 8 milhões de indivíduos, ou seja, 23 por cento da população empregada alemã! Para que melhor se perceba o alcance desta realidade, que o estudo em apreço dá nota, na Alemanha, a criação de emprego baseada em trabalho com rendimentos baixos tinha paralelo na seguinte estratificação: 8 milhões de pessoas ganhavam menos de 9,15€/hora, sendo que destas, 4,1 milhões ganhavam menos de 7€/hora, 2,5 milhões menos de 6€/hora e 1,4 milhões menos de 5€/hora. Assinale-se ainda que estas remunerações correspondiam a valores brutos/hora, ou seja, ainda sem liquidar os impostos aplicáveis. Em suma, o mesmo será dizer que 8 milhões de pessoas -cerca de 23% da população empregada na Alemanha- auferiam menos de 1.000€/mensais, com a particularidade deste valor mensal não ser propriamente a realidade dos 3,9 milhões que se situam na fasquia dos 6€/hora. Face ao exposto tornar-se-á difícil descartar a hipótese segundo a qual a criação de emprego (na Alemanha) tem sido feita em boa parte (nos últimos 15 anos) com base na criação de empregos com remunerações baixas, no contexto de uma Europa que parece ter atingido o limite da sua competência na criação de empregos bem remunerados, sobretudo, tendo em consideração a ferocidade dos seus competidores asiáticos em matéria salarial. Recorde-se a este propósito, por exemplo, que o salário mínimo mais elevado na China é de 1.500 yuan (180€)... A confirmar-se a validade da fórmula alemã, tornar-se-á inevitável averiguar que alternativas se colocarão, gradualmente, à nossa própria sociedade, dotada de uma população ativa de 5,5 milhões de indivíduos, entre os quais mais de 15% estão desempregados, face a uma economia nacional que denota extrema dificuldade em retomar a oferta de empregos… mesmo que pior remunerados. Perante o sofrimento do "ajustamento forçado", parece cada vez mais evidente que a curto prazo talvez sejamos chamados a considerar entre rendimentos médios do trabalho mais baixos ou (em alternativa) suportar uma taxa de desemprego alta, durante bastante tempo (e que dificilmente regressará aos valores baixos que um dia vivenciámos), porque face a persistência do contexto global, a nossa taxa incorporará um desemprego estrutural crescente, decorrente dos baixos níveis de instrução e da reduzida empregabilidade dos ativos envolvidos. Porém, independentemente das tendências que a seu tempo se revelarão em matéria de (des)emprego e rendimento do trabalho, é praticamente inevitável escaparmos a custos sociais globais muito significativos, com a particularidade, destes, terem consequências imediatas e intergeracionais para as quais não estávamos propriamente preparados ou habituados.
Ricardo Fabrício