Dizem com insistência que Miguel Relvas pressiona. O Governo do qual é membro que o diga. Mas consta que também o faz em relação a jornalistas. Não surpreende. Por duas razões.
Primeira: ministro que não mostre capacidade para pressionar nem toma posse. Aliás, o primeiro acto de qualquer governante é exercer pressão sobre a caneta com a qual assina o compromisso de honra. E há quem, a partir desse fatídico momento, lhe tome o gosto. Até um dia. Segunda: jornalista que se preze convive com inteligência com as tentativas de coacção e de pressões exercidas por políticos, empresários, dirigentes desportivos e até delinquentes cadastrados. Quem o negar ou é hipócrita, não atende telefones, ou pior, ainda não escreveu nada de importante. Faz parte da missão informativa saber lidar com os desesperos de quem quer influenciar, relativizando ou ignorando tamanho expediente.
Dizem que o mesmo Relvas ameaçou um jornal com “blackout noticioso do Governo”. A comprovar-se, o ministro recorre a práticas que configuram quer uma limitação da liberdade de imprensa, como uma penalização severa do direito que os cidadãos têm a estarem informados. Na prática, o ministro viola as leis e o bom senso. O que também não é caso único, nem é novidade.
Dizem que Relvas prometeu revelar “detalhes da vida privada” de uma jornalista. Apenas comprova que herdou o pior dos tempos de Sócrates, que a chantagem é hoje imagem de marca governos com tempo de sobra para as manobras de diversão. Mas mais uma vez imita outros praticantes.
E dizem ainda que Relvas acusa a jornalista Maria José Oliveira de escrever as suas notícias "num estilo de jornalismo interpretativo”, revelando assim desconhecer o código deontológico dos cúmplices da verdade, o mesmo que aconselha a relatar factos com rigor e a interpretá-los com honestidade. A percepção que o ministro responsável pela Comunicação Social tem da actividade jornalística é eloquente, mas o desejo de tê-la submissa e pronta a usar em proveito próprio também não é inédito.
Em matéria de atentados à liberdade de imprensa, Miguel Relvas é um reles amador quando comparado com experimentado Alberto João Jardim. Mas deste perigo público o País das notícias não fala, não se escandaliza, não debate, nem se indigna. Aliás, baba-se com os disparates políticos e, pior, até lhe mendiga uns minutos de exclusividade. Não é novidade, mas importa lembrar que Jardim compromete o pluralismo da imprensa na Madeira, colocando-a "objectivamente em sério risco", como já alertou há dois anos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social; esbanja quatro milhões por ano num jornal que usa para propaganda pessoal; fomenta a concorrência desleal e exorta empresários a não anunciarem no DIÁRIO; manda publicar no seu jornal cartoons e notícias não assinadas recheadas de insultos; chama ‘cachorro’ a quem diz umas verdades e hostiliza proprietários de jornais como se estes não gerassem emprego; determina opinião única no jornal pago pelos contribuintes e decreta a perseguição ao jornalismo independente; ordena corte de assinaturas e ameaças de expropriação; move processos judiciais a quem faz notícias incómodas; decreta silêncios até impediu os social-democratas de darem opinião no DIÁRIO; finge ser mestre em acção, que alguns, erradamente, julgam ser apenas psicológica e não raras vezes não responde às questões colocadas….
Que Relvas ou Jardim pressionem, não me incomoda. Preocupante é haver quem se deixe impressionar. E não actue em conformidade, de uma vez por todas.