Há coisas nas quais custa acreditar. Nos últimos dias, a cena política tem oferecido vários exemplos que desafiam a fé e a credulidade. Umas são apenas risíveis, outras são preocupantes, mas, na maioria das vezes, acumulam os conceitos de risível e preocupante, o que as torna em verdadeiros fenómenos de incompreensão e estupefacção.

Para não ser exaustiva, lembro apenas três episódios que tiveram lugar esta semana, e que são sintomáticos do estado da “coisa”, para usar termo muito em voga.

Numa lógica de proximidade lexical, destaco, em primeiro lugar, a forma como o ministro Álvaro se referiu ao desemprego que alastra neste país com contornos cada vez mais preocupantes e humanamente insuportáveis. Alváro Santos Pereira considerou, em plena Assembleia da República, que sindicatos, patrões e partidos têm de trabalhar em conjunto para ultrapassar esse “coiso” (desemprego). Foi o momento ‘tesourinho deprimente’ da semana, e até seria mais um episódio de ‘stand up comedy’ a que já nos habituou o ministro Álvaro, se o “coiso” não fosse sintomático da forma como este governo tem encarado o desemprego, que realmente parece ser coisa de somenos importância na agenda neo-liberal de quem conduz os destinos deste país cada vez mais pobre e sem rumo.

Mas coisas estranhas também se passam do lado de cá. A ‘coisa’ em que se transformou o parlamento regional voltou a dar um ar da sua desgraça, quando esta semana aquela coisa que dá pelo nome de Grupo Parlamentar do PSD resolveu-se por uma debandada quase geral na discussão de um voto de pesar pela morte de Miguel Portas. A coisa, praticada por esta maioria cada vez mais desesperada, não merece outra designação que não seja a de vergonhosa, tanto a nível democrático como a nível humano. É precissmente pela junção destes dois universos que a coisa pode ser perigosa. Quando a qualidade democrática, ou a falta dela, anda a par e passo com a falta de qualidade humana chegou-se a um nível que pode consubstanciar um perigo real. Um nível em que vale tudo, em que se esquecem os valores, as regras da convivência, o bom senso e até o senso comum de como estar na vida e na morte. Um nível onde os que pensam diferente não são adversários, mas sim inimigos a quem não se perdoa, nem na morte, o facto de, legitimamente, pensarem diferente e se baterem pelos seus ideais.

O último episódio desta autêntica galeria de ‘fenómenos’ poderia até ter acontecido na Madeira, mas aconteceu em Lisboa, e, se calhar, apenas por essa circunstância geográfica foi notícia, já que por aqui também se passam coisas muitos estranhas no âmbito da liberdade de imprensa mas que não merecem o mesmo nível de atenção mediática.

O ministro adjunto dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, terá ameaçado promover um boicote de todos os ministros ao jornal ‘Público’ e divulgar na internet detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira para assim tentar, como aliás conseguiu, impedir a divulgação de uma notícia que lhe era desfavorável.

A tentativa de exercer pressão sobre um jornal para o impedir de cumprir a sua função é já de si grave, mas, mais grave ainda, é pensar como terá um ministro acesso a detalhes da vida privada de uma jornalista. O que pode estar por detrás desta ameaça é ameaçador do ponto de vista do direito à privacidade e coloca de novo na ordem do dia o papel da Secreta portuguesa, que, a acreditar na ameaça do ministro Relvas, pode servir para vigiar, de forma aleatória e ao arrepio da lei, cidadãos que não representam qualquer ameaça para o Estado e que, por isso mesmo, deveriam ter assegurado o seu direito à privacidade.

A lista de ‘coisas’ e de ‘coisos’ que se comportam de forma estranha neste país poderia continuar, mas, para exemplo, é melhor deixar as coisas por aqui.