Há quatro semanas, neste mesmo espaço, olhando a "Madeira vista de fora", dei conta do que eram sinais, ainda que ténues, da mudança que se deseja e a Madeira merece e apelei pela sua concretização, no quadro da autonomia política que sempre defendi, desde o meu primeiro artigo publicado no Diário, no dia em que se assinalava o centenário do primeiro passo dado em 8 de Agosto de 1901, a caminho dessa mesma autonomia. Não tardou muito para que os tais sinais se dissipassem e de novo emergisse a ameaça separatista e a absurdidade protagonizada por uns quantos que ousam mais uma vez agitar a bandeira da independência para a Região que, dir-se-ia, não ser mais do que uma nova manobra para fazer divergir a atenção das questões que estão na base da crise que afecta a RAM. Por coincidência ou não, mas a propósito do sentimento autonomista que nada tem a ver com ideias independentistas, o debate realizado na Universidade da Madeira, no âmbito das Jornadas de Identidade e Política, que levou Marta Caires a escrever o artigo publicado há 10 dias, "Autonomia um desejo com 200 anos" que não serão tantos mas vem, efectivamente, de longa data como escrevi, apoiado na informação histórica, designadamente, no "Elucidário Madeirense, da autoria do Pe. Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Menezes, donde me permito transcrever: «O dia 8 de Agosto de 1901 figura como uma data memorável nos anais deste arquipélago. Foi nesse dia que o Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, então presidente do conselho e ministro do reino, referendou um decreto concedendo à Madeira a autonomia administrativa … … Não é sem dúvida uma autonomia com plenos poderes de administração local mas representa um dos mais apreciáveis benefícios com que tem sido dotada a Madeira num longo período de séculos e certamente o maior de todos, no que diz respeito à concessão dos meios indispensáveis para a fácil realização de importantes melhoramentos materiais… ... Foi a partir do ano de 1902, em que se iniciou a arrecadação das receitas facultadas à Junta Geral, que esta corporação administrativa começou a realizar uma grande soma de investimentos públicos, especialmente na construção da rede de estradas.» Como é do conhecimento geral, após o "25 de Abril" e, particularmente nas duas últimas décadas, desenvolveu-se uma disputa pela paternidade da autonomia, com os partidos políticos a se perfilarem como seus donos, reclamando «uma paternidade que não lhes pertence, enveredando na defesa das suas posições, pela intriga ou até pela via do insulto, na crítica do adversário». Ora, na realidade, o verdadeiro DONO da autonomia da RAM é e nunca poderá ser outro que não seja o próprio Povo Madeirense que pode e deve reclamar dos poderes públicos e partidários o respeito pela sua vontade e determinação em continuar parte integrante da nação portuguesa, nessa mesma capacidade exigindo que cessem as tricas e se cuide com serenidade, harmonia e bom senso, de empreender a mudança que se impõe. [por decisão do autor, este texto não respeita as normas do Acordo Ortográfico]

Francisco Leite Monteiro